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Nara Tenório
Por
Cleverson Guedes
Dona de uma boa estatura e de uma técnica apurada, ela fez parte do início da construção de todo o trabalho que hoje é colhido pela atual geração do voleibol feminino brasileiro. Sentiu na pele toda a precariedade que existia dentro do esporte na época em que foi jogadora, na década de 1970, tendo que infelizmente encerrar a carreira precocemente para dedicar aos estudos e ao seu futuro profissional, já que o esporte ainda engatinhava para alcançar o profissionalismo.
Teve a honra de estar presente em uma edição dos Jogos Pan-Americanos, na Cidade do México, e chegou muito perto de participar dos Jogos Olímpicos em Montreal. Mas a temível equipe peruana impediu da atleta realizar esse sonho. Ganhou do Brasil numa final muito disputada o título sul americano de 1975 e tirou a vaga de nossa seleção do Torneio Olimpico. Entretanto, isso não apaga em nada a grande carreira que essa pernambucana teve, onde pôde mostrar que o voleibol movido somente pela paixão também alcançava grandes êxitos.
A ex-meio-de-rede Nara Tenório contou ao Melhor do Vôlei como foi participar de uma geração que jogava somente por PAIXÃO ao esporte e de suas conquistas com a camiseta da seleção brasileira. A ex-atleta, nascida no dia 18/02/1956 e que tem 1,80m, comentou ainda sobre a atuação situação do voleibol nordestino, que em sua época de atleta era uma força no cenário nacional e hoje se encontra em declínio. Por fim, falou dos problemas que o voleibol feminino nacional atualmente enfrenta.
A CARREIRA DE NARA:
Clube Náutico Capibaribe – Recife (1971 a 1979)
Sport Clube do Recife – 1982
Clube de Regatas Brasil - CRB– Alagoas - 2001 (Máster)
Clube Náutico Capibaribe 2005 e 2006 (Máster)
TÍTULOS:
Campeã Pernambucana Infantil– 1971 Náutico
Campeã Pernambucana Juvenil – 1971 à 1973 e 1975 Náutico
Vice-campeã Pernambucana Juvenil - 1974 Náutico
Campeã Pernambucana Aspirante – 1973, 1974 Náutico
Campeã Pernambucana Adulto - 1973, 1974 e 1979 Náutico
1982 Sport
Campeã Brasileira Juvenil – 1972 ( Fortaleza) e 1975 (Recife)
Vice-campeã Brasileira Estudantil – 1972 – Maceió –AL
Vice-campeã Pernambucana Estudantil - 1974
Campeã da Copa Nordeste Adulta – 1974
Vice- campeã Sul-americana Adulto – Assunção – Paraguai – 1975
Campeã da III Olimpíada Universitária Global – 1976
Campeã do Torneio Internacional Juvenil – 1976 - Peru
Campeã do Circuito Carlos Arthur Nuzman – 1979
Campeã do Torneio Comemorativo dos 67o Anos do CRB (Alagoas) – 1979
Vice-campeã Pernambucana da Copa Super-master– 2001 CRB
Campeã da Copa Pernambucana Máster, pelo CRB – 2001
Terceiro lugar no Campeonato Brasileiro de Voleibol Máster– 2001 CRB
Terceiro lugar no Torneio Super-master de Fortaleza - 2006
Campeã da II Copa Olinda de Voleibol Master - 2006 Náutico
PREMIAÇÕES
Melhor Atleta Adulta de Pernambuco – 1973 e 1974
Melhor Atleta do Brasileiro Juvenil de Seleções – 1975
Como foi o início da sua carreira dentro do voleibol? Houve influência de alguém para você escolher praticar esse esporte e tê-lo como profissão por parte de sua vida?
O vôlei surgiu em minha vida ao ver os garotos e garotas bem mais velhos que eu jogando “peladas” perto de minha casa em um campo de areia que ficava no meio da rua e que eram interrompidas de vez em quando, para a passagem de carros.
Pouco tempo depois, meu irmão mais velho, Breno, que já jogava no Colégio Salesiano com o técnico Edinilton Vasconcelos, me levou para treinar na escolinha do Sport Clube do Recife, com o treinador Airton Santa Rosa, que logo me passou para treinar com a equipe infantil daquele clube, porém só fiquei lá por cerca de 1 mês e meio, pois as idas e vindas aos treinos eram complicadas. Naquela época o transporte púbico era deficiente; além de ter que tomar quatro ônibus, tinha que andar um bom pedaço a pé.
Como foi o seu começo de carreira no Clube Náutico? Quem foi seu primeiro treinador e como foi sua relação com ele?
No início de 1971, ocorreu o Campeonato Brasileiro Infantil e fui assistir aos jogos, principalmente para ver meu irmão Breno na Seleção Pernambucana Infantil que se sagrou campeã brasileira; Pernambuco foi campeão no masculino e feminino. Durante os jogos Edinilton Vasconcelos me viu na arquibancada e pediu para meu irmão me levar para treinar no Náutico. Lembro bem do primeiro dia que fui treinar com Edinilton e neste dia começou a surgir uma relação de pai para filha, de educador e educando que perdura até hoje.
Quando você iniciou a prática do voleibol, o esporte era pouco divulgado em relação ao que é hoje. Independente disso, você teve algum (a) atleta que você admirava muito e se espelhava?
Só comecei a ter contato com atletas do sul no ano de 1972 e o atleta que mais me impressionou foi o grande e inesquecível Antônio Carlos Moreno.

Em seu início de carreira em que posição você atuava? Qual fundamento você mais se destacava?
Comecei no meio de rede e meu melhor fundamento era o bloqueio. Com o surgimento do jogo rápido desenvolvi o ataque de bolas de tempo.
Pernambuco em sua época de juvenil era uma das forças do voleibol nacional. Que atletas desse estado surgiram com você nessa mesma geração?
Rejane Maia, Deyse Coelho, Marilda Leal, Ana Lúcia Gomes, Vera Lúcia Gomes e Ignácia Queiroz.
Em 1972 a seleção de Pernambuco foi campeã brasileira de seleções juvenil e você teve o seu nome entre as convocadas para treinar e disputar uma vaga para disputar o Primeiro Campeonato Sul-Americano Juvenil, que foi realizado aqui dentro do Brasil, porém foi cortada. O então técnico da equipe, Pedro Buzato da Costa, alegou algum motivo para o corte? Você se sentiu injustiçada com esse fato?
Ele não justificou o corte. Disse apenas que só poderia ficar com 12 atletas e que eu tinha sido a escolhida para ser cortada. Em seguida, convidou-me para permanecer com a delegação durante o campeonato, mas não aceitei. Fiquei destruída. Um tio meu que morava no Rio de Janeiro me retirou do hotel horas após o corte e me levou a um psicólogo para conversar comigo. A decepção foi tão imensa que só consegui ter motivação para voltar a treinar com vontade após uma conversa muito forte que tive com Edinilton, que até hoje sabe me motivar e me dizer verdades que precisava e preciso ouvir; ele me conhece como poucos.
Naquela Seleção aconteceram cortes misteriosos, pois duas atletas foram cortadas por exame médico, uma do estado do Rio de Janeiro e outra de Pernambuco. Segundo os exames, elas estavam quase com leucemia. A atleta de Pernambuco ao retornar ao Recife, repetiu os exames e todas as taxas estavam mais que normais.

Você não esteve presente no Sul-Americano Juvenil de 1974, que foi dirigida pelo técnico José Paiano. Você pediu dispensa ou realmente não foi convocada?
Não fui convocada. Após o corte da Seleção de 1972 resolvi que ia ficar jogando apenas no Recife, sem participar de competições nacionais, pois além da decepção tinha que me preparar para o vestibular. Desta forma saí da vitrine do voleibol nacional.
A seleção brasileira adulta teve a pior campanha da sua história com a 15ª colocação no Mundial de 1974 realizado no México. Em sua opinião, quais foram os motivos que levaram a má campanha do selecionado no torneio?
Não acompanhei o campeonato. Naquela época não havia divulgação de eventos do voleibol. As notícias que tive foram dadas por Rejane Maia, pernambucana que esteve no Mundial, mas sem grandes detalhes.
Em 1975, Pernambuco novamente foi campeão brasileiro de seleções juvenil e você foi eleita a melhor atleta do campeonato. Você relembra algum momento que te marcou naquele campeonato? Qual foi a sensação de ser eleita a melhor atleta juvenil do país?
A primeira grande emoção foi a de fazer o juramento do atleta na abertura do Campeonato e outras se seguiram a cada jogo, pois só perdemos um set para o Rio Grande do Sul, de Heloísa Roese no último jogo quando fomos campeãs. E a maior de todas, com certeza, de ser eleita a melhor atleta do campeonato.

Nesse mesmo ano de 1975 você foi convocada para a seleção adulta pela primeira vez para o torneio Internacional que foi realizado no Japão. Como foi a sua reação ao saber da sua convocação? Como foi a participação da equipe nesse torneio?
Para mim foi uma alegria enorme ter sido convocada entre tantas atletas que participaram do campeonato adulto daquele ano de 1975, em Florianópolis. Foram chamadas as 12 melhores para treinar e sem corte. A participação no Torneio com as seleções do Japão e Cuba e as equipes japonesas da Yashika e Hitachique seria o início dos treinamentos para o Pan Americano do México e do Sul-americano que classificaria a equipe brasileira para as Olimpíadas de Montreal.
Participar daquela seleção foi excelente. O grupo era maravilhoso, um misto de juventude e experiência, pois tínhamos Helenize Freitas, nossa capitã, Alena, Cássia e Sílvia Montanarini, Eliana Aleixo, entre outras; além da juventude e força de Angélica Beraldo e Irena Hunka. Ouvimos do técnico do Japão a seguinte frase; “Se me fosse dada esta equipe para treinar eu a faria Campeã Mundial em 2 anos”.
N.E.: A equipe brasileira que participou do Torneio Internacional do Japão foi composta pelas seguintes atletas:
Helenize Freitas, Alena Hunka, Irena Hunka, Maria Angélica Beraldo, Sílvia Montanarini, Cássia Montanarini, Rejane Maia, Eliana Aleixo, Nara Tenório, Ivone Lapa, Maria Helena Decoussau e Marilena Costa.

Ainda em 1975 o Brasil esteve presente nos Jogos Pan-Americanos do México e não fez uma boa campanha, ficando somente na 5ª colocação, a pior posição da história. Houve algum problema para que a equipe não fizesse uma boa campanha na competição? A equipe que foi era realmente o que tinha de melhor no país?
O grande objetivo da CBV em 1975 era a classificação da equipe feminina de voleibol para as Olimpíadas de Montreal. As atletas convocadas para iniciar este trabalho, que envolveria além do Torneio no Japão, o do Pan e um torneio internacional disputado em várias cidades do Brasil. Todo o corpo técnico e essas 12 jogadoras que foram ao Japão se comprometeram em ficar até o fim dos trabalhos que seria o Sul-Americano de Assunção. Porém, quando a seleção se apresentou para continuar os treinamentos visando o torneio internacional no Brasil e em seguida disputar o Pan, algumas atletas que foram ao Japão e o próprio técnico pediram despensa. Assumiu a equipe o assistente técnico Edinilton Vasconcelos. Acho que essas baixas, além da reestruturação do novo grupo e o curto espaço de tempo, atrapalharam demais na disputa do Pan.
N.E.: Estiveram presentes nessa edição dos Jogos Pan-Americanos as seguintes atletas: Helenize Freitas, Fernanda Emerick, Angélica Beraldo, Sílvia Montanarini, Cássia Montanarini, Rejane Maia, Deyse Coelho, Fátima Pinto, Sônia Farias, Denise Mattioli, Maria Helena Decoussau e Nara Tenório.
Qual foi o momento mais marcante para você durante os Jogos Pan-Americanos? O que você achou da competição em nível técnico e de organização?
A abertura do Pan foi algo impressionante, pois pela primeira vez foram utilizadas crianças com painéis individuais que formavam figuras enormes. Foi lindo!
O nível técnico foi alto. O Canadá foi uma grande surpresa com um bloqueio muito alto e muito bem montado. Os Estados Unidos contavam com a atacante Flo Hyman, com 1,97m e um bloqueio altíssimo. O Peru com sua equipe completa e o México com uma boa equipe. Foi uma disputa muita pesada.
Quanto à organização, foi quase perfeita.

Após o Pan-Americano, o Brasil lutava em busca de recuperar o título sul-americano que não era conquistado desde 1969, porém a equipe caiu diante da equipe peruana. Foi frustrante perder aquele campeonato e conseqüentemente a vaga para as Olimpíadas de Montreal? O Brasil tinha chances de conquistar aquele título ou o Peru realmente era uma equipe bem superior à brasileira?
Para mim a frustração foi bem maior que a do corte da Seleção Juvenil de 1972, pois havia um plano a ser cumprido, havia o compromisso assumido por atletas e comissão técnica. Ir às Olimpíadas é o desejo de todo atleta, na minha opinião. Quando começamos os treinamentos para o Sul-americano, das doze atletas que foram ao Japão, só restavam duas juvenis, Angélica Beraldo e eu e Edinilton teve de convocar, acho que com dificuldades, outras atletas e só conseguiu três atletas adultas. Disputamos um Campeonato com a responsabilidade de classificar para Montreal, com uma equipe quase que totalmente juvenil. E aí lutamos, demos tudo, mas não conseguimos, infelizmente. O Peru veio com toda sua força, mas nós fizemos o possível.
N.E. A equipe que participou do Sul Americano de 1975 era composta pelas seguintes atletas: Heloísa Roese, Regina Vilella, Titila Alvarez, Denise Mattioli, Fátima Pinto, Gláucia Soares, Albertina, Angélica Beraldo, Nara Tenório, Vânia, Sônia Farias e Ana Lúcia Castello.

Em 1976 você disputou a sua última competição pela seleção brasileira na categoria juvenil, num torneio disputado no Peru e se sagraram campeãs do torneio. Como foi se despedir da seleção brasileira com um título?
O Torneio foi muito bom, disputado em 8 cidades do Peru. Jogamos até em quadra de cimento e descoberta. O crescimento foi enorme. A confiança voltou, graças a qualidade do treinamento, ao entrosamento do grupo, a quantidade de jogos. Conseguir vencer do Peru era algo indescritível e o sorriso voltou aos nossos rostos.
N.E.: O torneio Internacional do Peru teve a presença das seguintes atletas no selecionado nacional: Ana Lúcia Castello, Ana Isabel Lobo, Rosa Bezerra, Marilda Leal, Nara Tenório, Vera Gomes, Kika (SP), Mônica (MG), Fátima Pinto, Angélica Beraldo e Heloísa Roese.

Quais foram as razões para que você pedisse dispensa do grupo que iria disputar o Sul-Americano Juvenil na Bolívia?
Sempre fui uma boa aluna. Meu querido técnico sempre cobrou boas notas e empenho nos estudos. Como no ano de 1975 eu já estava na faculdade e, por causa de faltas devido aos treinamentos da Seleção, fui reprovada em uma cadeira no primeiro semestre e tive que trancar o segundo. Fiquei super preocupada com o meu futuro profissional, pois nunca imaginei que o vôlei fosse dar o salto que deu. Salto este não só tecnicamente, mas na questão profissional. Então fiz a opção, penso hoje que errada. O vôlei ocupava quase que a totalidade de meu coração, era minha escola de vida, a minha grande paixão, mas o futuro me preocupava. Lembro que conversava com Helô Roese e dizia que precisava voltar para a Universidade e ela me falava que dava para esperar e, infelizmente, não segui os conselhos dela. Amiga, você estava certa!
Você enfrentou a seleções peruanas de base e adultas quase que simultaneamente e o Brasil sempre ganhava dessa equipe na categoria juvenil, porém não conseguia ganhar na categoria adulta. Havia muita diferença na tática de jogo da equipe juvenil e adulta, até por conta do esquema do time adulto do Peru, que naquela época jogava no sistema 6x2?
A diferença era muito grande. Muitas das juvenis não tinham nem a experiência nem a técnica apurada como as da equipe adulta. A seleção peruana adulta tinha um trabalho muito forte.
Como eram os confrontos com as peruanas? Havia provocação durante as partidas? Em sua opinião, qual foi a melhor peruana daquela geração que você viu jogar e enfrentou?
As provocações sempre existiram e jogar com elas era bem difícil. Para mim a melhor jogadora peruana de todos os tempos foi a Lucha Fuentes.
N.E.: Lúcia (Lucha) Fuentes foi sem dúvida uma das melhores jogadoras peruanas de todos os tempos, tendo participado dos Mundiais de 1967, 1970, 1.974 e 1978 e dos Jogos Olímpicos de 1968 e 1972.
Afastou-se da seleção peruana em 1979 ainda jovem com apenas 26 anos para dedicar-se ao voleibol profissional, indo jogar na Liga Universitária Americana e posteriormente na Liga Italiana. Sua filha é jogadora da seleção juvenil do Peru .
Como estamos falando de adversários do continente americano, não podemos deixar de mencionar Cuba, que era a principal potência do continente já na década de 70. Como era o comportamento das cubanas naquela época? A equipe cubana tinha grandes atletas naquela geração como Mamita Perez, Imilsis Tellez e Erenia Dias. Em sua opinião, qual era a atleta destaque daquela equipe? Qual era diferença entre os confrontos com as peruanas e cubanas, visto que eram os maiores adversários do Brasil naquele período?
A Mamita Perez era demais. Com seus 1,65m conseguia com impulsão parada, alcançar a cesta de basquete. Ela era simplesmente maravilhosa. O comportamento das cubanas na quadra era quase que o mesmo de hoje em dia, mas fora da quadra gostavam de conversar amavelmente conosco. No Torneio do Japão nos aproximamos muito, chegamos a trocar camisetas e elas demonstravam muito interesse em saber como era a vida aqui no Brasil. Quanto à diferença entre os confrontos eram bem diferentes, pois contra as peruanas eram bem mais acirrados, queríamos ganhar e com as cubanas lutávamos contra uma força bem mais poderosa.
N.E. Mercedes “Mamita” Perez foi o grande pilar da seleção cubana campeã mundial em 1978. Sua geração ficou conhecida como “As Morenas do Caribe” e serviram de espelho para o grande time de Cuba da década de 90.
Após seu pedido de dispensa da seleção, você não esteve mais presente em competições como o Mundial de 1978, os Jogos Pan-Americanos de Porto Rico e os Jogos Olímpicos de Moscou. Você não quis mais vestir a camiseta da seleção ou realmente não teve seu nome constando nas listas de convocadas para essas competições?
Na verdade sumi das quadras, cuidando dos meus estudos e me casei. Só voltei a jogar em 1982 pelo Sport Club do Recife, quando fui campeã pernambucana adulta pela última vez.
Como eram os treinamentos da seleção nessa época? Como era a estrutura da seleção? Havia alguma ajuda de custo para as atletas nesse período?
Os treinamentos eram muito bons. Ficávamos em São Paulo, normalmente no DEF. A parte física era feita pela manhã e a parte com técnica à noite. Treinávamos 8 horas por dia e só tínhamos folga aos domingos à tarde. Na seleção que foi ao Pan do México tivemos a colaboração de Nobuhiro Imai, que foi da Yashika, que nos ajudou bastante nos treinamentos, principalmente nos de defesa. Não havia nenhuma ajuda de custo. Só quando estávamos fora do País recebíamos uns três dólares por dia, mais ou menos, pois a Lei exigia, segundo os dirigentes. Na seleção juvenil de 1972 a preparação física ficou a cargo dos professores de Educação Física da Academia Militar das Agulhas Negras. O técnico era o Buzato e o assistente o Toroca (Walter Laranjeiras). Treinamos em Resende (RJ) por mais ou menos dois meses, antes da competição. Na que foi ao Japão o técnico era José Paiano, o assistente Edinilton Vasconcelos. Nas do Pan e Sul-Americano o técnico era Edinilton Vasconcelos, e o assistente Carlos Brunoro, que fazia em conjunto com José Augusto na parte física.
Como era o sistema de jogo do Brasil nesse período? Já se jogava o sistema 5x1? Como era o sistema de passe (ainda utilizava-se o sistema em W com 5 passadores)? Já havia jogadoras que sacassem viagem ou que atacavam do fundo?
Jogávamos 5x1, com Belê (Helenize) levantando, no Pan. No Japão, a levantadora era Maria Helena, que jogou no Paulistano e no Torneio do Peru, a levantadora era Marilda Leal.
O passe era feito com 5 ou 4 jogadoras e ninguém sacava viagem nem atacava do fundo. Angélica e Belê (Helenize) sacavam de lado às vezes, à moda antiga da equipe do Japão.

Havia alguma jogadora estrangeira que atuava na sua mesma posição e que você tivesse grande admiração?
A Mamita, claro. Do Brasil admirava muito Eliana Aleixo e Cássia Montanarini.
Você foi treinada por vários técnicos durante seu período na seleção brasileira, como Pedro Buzato, José Paiano e Edinilton Vasconcelos. Dentre todos eles, qual foi o que você mais se identificou com o trabalho?
Com certeza com Edinilton Vasconcelos, pois já estava acostumada com as broncas necessárias, o silêncio na hora certa e os incentivos próprios. Como já falei antes, nossa relação era e é de pai para filha e de filha para pai. Ele é o meu pai do vôlei, além de ser um grande educador.
Durante toda sua carreira você sempre esteve atuando por equipes de seu estado, no caso Pernambuco. Na região Sudeste estavam começando surgir equipes profissionais, como a Pirelli. Você chegou a receber proposta de alguma dessas equipes? E pra jogar no exterior? Recebeu alguma proposta?
Do exterior, recebi proposta para jogar por uma Universidade da Califórnia e no Brasil da Hípica de Campinas.
Por quais motivos você encerrou sua carreira tão jovem, com apenas 26 anos?
Foi a preocupação com o futuro, por não imaginar que o vôlei ia se transformar em profissão.
Como surgiu a idéia de você voltar a jogar voleibol na categoria Master depois de 19 anos sem atuar nas quadras? Como são esses torneios Master que vocês disputam regularmente?
Foi graças a minha amiga/irmã Marilda Leal. Ele me ligou falando que ia haver um Campeonato Brasileiro de Master em Curitiba e que a Fátima Pinto, nossa companheira alagoana de Seleção, estava nos convidando para jogar pelo CBR de Alagoas. Topei na hora e comecei a treinar com as equipes de mirim e infantil do colégio que Marilda treinava. Infelizmente, não fomos ao Campeonato, pois Marilda adoeceu e teve que se submeter a uma intervenção cirúrgica, mas continuei treinando e no ano seguinte jogamos o Brasileiro de Master pelo CRB e ficamos em terceiro lugar. Hoje jogo pelo Náutico do Recife.
Os torneios são maravilhosos, com muita confraternização e que nos mantêm unidas graças ao nosso amado vôlei. A turma do Master é bastante organizada e a partir deste Brasileiro vários torneios foram criados de Norte a Sul do País. Equipes brasileiras vão até disputar todos os anos o US Open nos Estados Unidos, mesmo sem patrocínio ou apoio, mas por amor ao voleibol.

O que você faz atualmente no seu dia a dia? Pensa em voltar a atuar no meio do voleibol, como técnica, por exemplo?
Atualmente trabalho na Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, órgão do Ministério da Educação. Sou pai e mãe de Clarissa que tem 21 anos e é estudante de Direito. Treino às segundas, quartas e sextas no Náutico, faço parte da Federação de Voleibol do Estado de Pernambuco, como diretora de Master e membro do Conselho Fiscal, além de me dedicar a um trabalho voluntário junto à Fundação Terra. Nunca pensei em ser técnica de voleibol, por isso não fiz curso de Educação Física.
O que você acha que falta para a região Nordeste, em especial o estado de Pernambuco voltar a ser a grande potência que era no voleibol feminino, como na década de 70?
Em primeiro lugar, ter técnicos à altura do vôlei brasileiro e em seguida motivar empresários para formação de equipes que possam participar das Super Ligas Nacionais. Acho que se tivermos equipes disputando estes torneios conseguiremos motivar a criançada na prática do vôlei o que, com certeza, fará surgir novos bons atletas.
O que você achou da campanha da seleção brasileira feminina adulta nesse biênio 2005/2006? Você acha que o técnico José Roberto Guimarães está no caminho certo rumo à conquista da inédita medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim?
Tenho muita confiança e respeito pelo Zé Roberto, pois o admiro demais como pessoa e como profissional. Acho que o caminho que estamos trilhando com o Zé no comando, vai nos levar à conquista em Pequim e antes disso à medalha de ouro no Pan do Rio.
Você acha que as atletas que estão jogando pelas seleções de base do Brasil têm reais condições de substituírem as atuais no futuro? O trabalho de base está no caminho certo?
Tenho certeza que essas jogadoras terão as condições de no futuro substituírem as atuais, basta que se dediquem. Acho que o trabalho de base é muito bom, tanto o do Rizola como o do Luizomar. Com certeza, elas chegarão lá.

O que você acha que deve ser feito por parte da CBV para conter o êxodo de atletas para o exterior?
Percebo que este êxodo é provocado pela tentativa de garantir um futuro tranqüilo para os atletas. Como em nosso país a insegurança é grande em todos os setores, eles partem na tentativa de obter a estabilidade financeira depois que pararem de jogar. A CBV tem a obrigação de criar um programa que, pelo menos, dê alguma garantia aos nossos atletas.
A superliga nessa temporada como na temporada 01/02 possui o menor número de participantes em todas as suas edições. Você acredita que há solução para resolver esse problema? O que deve ser feito?
Tudo vai depender da CBV. Eles têm que abrir os olhos e criar alguma forma para diminuir este êxodo. Espero que elaborem em conjunto com os dirigentes, atletas, empresários e talvez o Ministério dos Esportes algo para não deixar o vôlei brasileiro ficar tão vulnerável.
Muitas ex-atletas da seleção brasileira ou que foram grandes atletas em clubes são pouco conhecidas pelas pessoas que acompanham o voleibol atualmente. Você acredita que isso se deve à CBV por não fazer uma maior divulgação das atletas do passado?
Com certeza a CBV tem sua parcela de culpa. A falta de memória é uma doença grave em nosso país, mas ainda restam esperanças, pois temos pessoas como vocês do site Melhor do Vôlei que respeitam o passado e estão resgatando o passado do nosso querido esporte.

Das atletas da atualidade qual você acredita que tenha um estilo de jogo parecido com o do que quando você era atleta profissional? Qual é a atleta atual em nível mundial que você mais admira?
Acho que no bloqueio tinha o estilo que lembra o da Fabiana. E na atualidade admiro muito a Sheila e a Danielle Scott.
Você sente-se arrependida de algo que fez ou deixou de fazer durante a carreira como atleta?
Só me arrependo de ter parado cedo demais.
Quem são suas amigas da época de quadra na qual você mantém contato até hoje? Como vocês se comunicam?
Regina Vilella, Angélica Beraldo, Heloísa Roese, Marilda Leal, Denise Mattioli, Carla Buzato Fragoso, Titila Alvarez, Fernanda Emerick, Ignácia Queiroz, Ana Teresa Mousinho, Ana Isabel Lobo. Nos comunicamos por e-mail, MSN, às vezes, por telefone, mas sempre nos encontramos ao vivo nos Torneios de Máster, para matar a saudade pessoalmente.
Você poderia deixar para os internautas do Melhor do Vôlei seu e-mail para que entrem em contato com você?
O que é pra você ser Melhor do Vôlei?
Uma honra!
Deixe aqui no Melhor do Vôlei uma mensagem a todos os amantes do voleibol e à aqueles que estiveram sempre presente com você no decorrer de sua carreira como atleta.
Sou do tempo do vôlei paixão e tive o privilégio de ser iniciada neste esporte por um grande homem e grande técnico chamado Edinilton Vasconcelos. Meu grande incentivador foi meu pai, que estava sempre comigo nos treinos, nos jogos, quando ocorriam no Recife ou cidades vizinhas, apoiando e torcendo. A ele, meu muito obrigada por tudo.
As lições aprendidas não foram apenas sobre bloqueios, ataques, defesas, saques e táticas, mas sim lições de vida. O nosso maior prêmio foi à construção da família do vôlei dos anos 70 e 80 que possui laços fortes e permanentes. Estamos juntas, embora distantes fisicamente.
Estou muito feliz com a iniciativa do Melhor do Vôlei em resgatar o passado do nosso esporte para preservá-lo. Espero que esta iniciativa dê a oportunidade aos amantes do voleibol conhecerem as atletas que construíram a base do vitorioso voleibol do Brasil.
Para concluir, espero que vocês, se um dia ouvirem alguns dos nomes abaixo citados, lembrem que fizeram parte da história do vôlei do nosso País:
Marilda Leal, Ignácia Queiroz, Sônia Farias, Eliana Aleixo, Cássia e Sílvia Montanarini, Helenize Freitas, Angélica Beraldo, Fernanda Emerick, Deyse Coelho, Regina Villela, Ana Cláudia Ramos, Heloísa Roese, Alena e Irena Hunka, Rejane Maia, Ivone Lapa, Ana Lúcia Castello, Fátima Pinto, Denise Mattioli, Rosita Garcia Madallen, Célia Garritano, Lenice Peluso, Titila Álvares, Maria Auxiliadora Castanheira, Helga Sasso, Regina Uchoa, Marta, Ivonete das Neves, Rita de Cássia, Paula Hernandez, Filomena, Mônica Caetano, Angélica Rizzo, Ethel, Carla Buzzato, Adriana, Gláucia Soares.

Fotos: Arquivo Pessoal
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