Por Andressa Caetano
Dando continuidade ao especial sobre o Vôlei Futuro, o Melhor do Vôlei conversou desta vez com a levantadora Flávia Fernanda, ou Flavinha como é chamada, que é um dos grandes nomes da equipe. Com 27 anos, a jogadora vem sendo a experiência do time em quadra. Flavinha conta sua carreira e sua temporada na Espanha onde defendeu o CV Albacete e logo na primeira competição, conquistou o Memorial Raul Canales e ela, fundamental nas vitórias contra Burgos e Sanse, ficou com o prêmio de MVP.
Como você avalia sua temporada na Espanha?
Ah, foi uma temporada boa, de muito aprendizado, não só profissional como pessoal, alias, bem mais pessoal. É um campeonato muito diferente do que estava acostumada aqui no Brasil, muitas estrangeiras, então torna-se um campeonato relativamente forte, mas ao mesmo tempo com muitos altos e baixos. Eu gostei muito, uma temporada que serviu para eu valorizar muitas coisas que eu tenho aqui pessoalmente.
Foi sua primeira temporada fora não é?
Sim, foi a primeira, acho que a primeira e a última (risos). Tive outras propostas pra ir pra outros países, até mesmo pra continuar na Espanha, mas hoje não faz parte do que eu quero pra minha vida.
Quais as diferenças básicas do vôlei de lá com o do Brasil?
Assim, comparado com o nível do voleibol aqui do país, as espanholas estão muito abaixo, não tem trabalho de base igual aqui, lá você não vê torneios de base, infanto, juvenil, tanto que o campeonato espanhol sobrevive com as estrangeiras. Você não vê jogadoras que são da base e que estão subindo pra reforçar equipe principal, porque não tem isso. São só as mais velhas mesmo que jogam a liga. É só reparar em campeonatos mundiais, como olimpíadas, elas não têm tradição nenhuma. Até penso na nova lei, como ficará o vôlei da Espanha e Suíça, vai ser muito prejudicado, vai cair bastante.
E em relação ao treinamento de lá?
É muito abaixo do que estávamos acostumadas, intensidade, até pelas meninas que não tem esse hábito. Treinávamos duas vezes por dia. Mas Cantur treinava uma vez, outro time da ilha também treinava só uma vez, mas o meu time treinava duas. A parte física também eu fazia com eles, algumas coisas eu fazia a parte, eu ia depois, porque elas não têm essa coisa de pegar forte como a gente pega aqui sabe, uma pré-temporada pra ganhar massa sabe?
Isso te prejudicou?
No começo não, mas depois da metade da liga pro final prejudicou um pouco, mas como eu fazia as coisas a parte, eu tinha acesso a academia a hora que eu quisesse. Mas é difícil, você pegar aquele inverno onde não se transpira muito e a gente não está acostumada, aí teve meninas ali que tiveram problemas com o peso. Então foi na parte final mesmo que senti que eu não tava tão bem como eu poderia estar, mas isso não chegou a me prejudicar.
O fato de ter vários brasileiros no time, te auxiliou na hora da adaptação?
Sim, claro. Apesar que me dei muito bem com as espanholas. A Lu (Luciana Ruiz) chegou quase um mês depois, a Érica que estava lá eu não tinha contato com ela, eu tinha mais era com o Osni mesmo, nosso técnico. Então eu me dei bem com as meninas, logo me enturmei. Eu já tinha noção de espanhol porque eu estudei, então pra mim não foi muito difícil. Aí depois o Osni saiu e voltou para o Brasil porque não deu certo lá.
Falando em Osni o que aconteceu, qual o motivo da saída dele?
Acho que foi falta de adaptação da parte dele com o país e um pouco com a língua. E acho que foi uma pressão mais dele mesmo. O clube lá tem cobranças, mas é um clube tranqüilo, mas acho que pesou mesmo foi ele mesmo, problemas pessoais que interferiram no trabalho dele. Não teve isso de ser dispensado nem nada, foi uma conversa entre ele e a diretoria, daí chegaram num consenso para sair. É difícil assumir uma equipe em outro país, outra cultura, é mais difícil para as pessoas te entenderem, é complicado. Mas acho que foi tudo muito válido pra ele, uma experiência que ele vai levar pra vida toda. E agora se surgir outras oportunidades ele vai encarar de forma diferente.
O Osni falou ao Melhor do Vôlei sobre os salários atrasados. Você teve esse problema com o clube?
Eu tive esse problema também, alias ainda estou tendo porque não recebi até hoje. Estou decidindo se entro na justiça, não sei, estou discutindo ainda com o meu empresário. Mas não só eu como muitas meninas estão com esse problema, que é comum na Europa né, é um entre e sai de patrocinador no meio da temporada...
E aqui no Brasil nunca te aconteceu isso?
Não, aqui nunca. Lá acontece assim, eles recebem o dinheiro no começo da temporada para pagar a temporada toda, mas sempre tem coisas atrasadas da outra temporada e vai indo, acaba reduzindo a verba. Por isso tem que pensar muito antes de ir pra lá. Porque todo mundo pensa: “É euro...”. Mas tem que tomar muito cuidado mesmo, tem que conversar com que já teve lá e possa te dar uma base do que acontece, é complicado, meio frustrante.
Esse é um dos motivos que te faz não querer voltar pra lá?
Não, é pelo fato mesmo de eu não querer mais, acho que tudo que você faz, se propõe a fazer, você renuncia a muita coisa, cada escolha é uma renuncia. Pra mim o que pesou mais foi a parte pessoal, familiar e quanto a isso pra mim não valeu muito a pena. Eu tive grandes perdas na minha família quando eu estava fora, então é complicado. Nunca vou dizer que nunca voltarei pra lá, mas é uma coisa que não está nos meus planos, só se for algo irrecusável.
Você sempre jogou nos grandes clubes do Brasil e o mais mediano que está jogando é agora o Vôlei Futuro, como você pode comparar a estrutura dele com as dos outros times?
Pra mim aqui está sendo uma experiência muito bacana, eles tem um projeto social muito legal, de escolinhas e tal. E eles têm todo um aparato por fora, não dá pra comparar em torno de salário em si, mas aqui temos alimentação, moradia, toda a infra-estrutura que a gente precisa, aqui eles dão, então estou feliz. Aqui é um projeto a longo prazo, pro futuro mesmo e eles estão no caminho certo, é bem por aí mesmo. E assim eu vim abraçando o projeto, acreditando em tudo que estão fazendo. Então nessa parte acho que não ficam abaixo de ninguém, de nenhum outro clube que já trabalhei.
Como você encara ter que ser a líder do time?
Pra mim está sendo tranqüilo, pois esse é meu jeito, independente se tiver jogando ou não, esse é meu jeito, de liderar. Hoje com certeza é maior, a responsabilidade é maior, é bacana ajudar as mais novas com um pouco de bagagem que eu tenho. Não é o tipo de responsabilidade de me prejudique, é super saudável.

Pretende continuar no time?
Olha não sei ainda, a única coisa que quero é ajudar a equipe pra que fique numa colocação legal na Superliga, num lugar que eu sei que somos capazes de estar. Mas quanto ao futuro não sei se continuo aqui, se vou mudar de time, se vou continuar a jogar vôlei.
Como uma levantadora experiente, quem você aponta como substituta da Fofão na seleção?
Eu acho que o grande nome agora é a Dani Lins, está numa fase muito boa, ao lado do Bernardinho, já é a terceira liga dela e ela de titular o tempo todo. Ana Tiemi também tem tudo pela frente, mas é lógico que é mais difícil quando não se está o tempo todo jogando, outra coisa é você jogar. Então ela vai ter que ter um pouco mais de paciência, de experiência, mas é outra menina grande que tem plenas condições de estar na seleção como a Dani Lins. A Carol continua, mas também não por muito tempo, então o lugar é desse pessoal mais novo, de repente abrir mão de estar em algum lugar pra poder jogar. Agora são oportunidades.
Você citou somente as duas, é pela altura?
Não, acho que a Dani Lins ta num grande momento, não é de agora, mas ela tem altura e isso ajuda muito porque o Brasil nunca foi um time muito alto, a gente vê pela Fofão, então busca-se muito isso. Mas eu digo é pelo potencial das duas.
Fernandinha...
Eu adoro o jogo da Fernandinha, sempre gostei. Ela ta muito bem, fazendo um grande campeonato na Itália. Ela é um espetáculo. Já joguei com ela no Brasil Telecom e admiro muito ela dentro e fora das quadras. Camila Adão também ta fazendo um momento muito bom, que conquistou um espaço, vinha do banco do Rexona e agora ta fazendo uma ótima liga no Brasil Telecom, mas aí vai do Zé Roberto mesmo, ele que escolhe.
Foto 1 a 3: Arquivo
Foto 4: Melhor do Vôlei
ESPECIAL VÔLEI FUTURO
Entrevista com Fernanda Gritzbach, ou simplesmente Gritz