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Thursday 18 January 2018
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Tifanny: a importância e a representatividade de uma atleta transexual

Foto: Marcelo Ferrazoli/Vôlei Bauru

Por Júnior Barbosa

Desde que recebeu autorização para atuar em competições oficiais femininas, Tifanny Abreu, de 33 anos, se tornou figura constante em reportagens no Brasil e no exterior, principalmente quando retornou ao país e passou a treinar no Vôlei Bauru. O clube, que disputa a elite do voleibol no país, abriu as portas para que ela recuperasse a forma física depois de meses parada devido a uma cirurgia na mão esquerda. O que era para ser algo passageiro evoluiu com uma proposta de contrato para que ela atuasse no decorrer da temporada 2017/2018.

Apesar de ter cumprido todas as exigências legais e clínicas para atuar ao lado de outras mulheres, a atacante é alvo fácil de críticas, julgamentos e até ataques pessoais. Mais do que isso: ela tornou-se uma das protagonistas da atual polarização que é alimentada por boa parte da grande mídia e de grupos políticos. E o motivo? Ela é transexual.

Quando ainda era homem, Tifanny disputou competições oficiais por equipes masculinas. A partir de 2013, iniciou o processo de transição e, com o tratamento hormonal, viu sua força diminuir bastante, o que a obrigou a buscar jogadas com mais habilidade e técnica. Por não conseguir mais competir entre os homens, parou de atuar. Foi então que o seu empresário a orientou concluir toda a mudança de sexo e, com a documentação já como mulher, iniciou os trâmites para atuar no voleibol feminino.

No início de 2017, a Federação Internacional de Vôlei (FIVB) tomou uma medida que colocou o nome da atleta na história do esporte brasileiro. Ela tornou-se a primeira atleta transexual a receber autorização para atuar entre mulheres na categoria. Assim, ela entrou em quadra pelo Golem Software Palmi, clube da segunda divisão do Campeonato Italiano.

O treinador da equipe na época, Pasqualino Giangrossi, afirmou à imprensa que tinha concordado com a contratação da Tifanny pelas suas habilidades e que ela “comprovadamente havia perdido algo em torno de 60% da força e que estava saltando 3,15 metros, quando antes saltava até 3,60”, declarou.

A atacante, porém, não foi a pioneira. Em 2016, a italiana Alessia Ameri já havia disputado uma partida no torneio. Ameri, que joga como líbero ou ponteira, está na Série B2 e veste a camisa do Pallavolo Cerignola.

O que estabelece o COI?

Em 2016, o Comitê Olímpico Internacional (COI) divulgou um relatório que estabeleceu as diretrizes para que um atleta transexual possa atuar em competições esportivas oficiais, com dispositivos que garantem uma disputa leal e justa.

Em um comunicado, a instituição afirmou que “é preciso que os atletas trans não sejam excluídos da oportunidade de participar de competições esportivas”. Em casos de mudança de sexo biológico de masculino para feminino, é necessário que a atleta se declare com a identidade de gênero feminina e que apresente exames compatíveis, ou seja, ter um nível de testosterona abaixo de 10nmoL/L nos 12 meses anteriores ao da primeira competição desejada. Outra mudança é que deixou de ser obrigatória a cirurgia de mudança de sexo.

A estreia na Superliga Feminina

Tifanny recebeu autorização da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) e foi inscrita na Superliga Feminina 2017/2018. A estreia aconteceu no dia 10 de dezembro do ano passado, quando o Bauru perdeu para o São Cristóvão Saúde/São Caetano no tie-break. A jogadora marcou 15 pontos e teve um percentual de 40% de aproveitamento no ataque. Sua companheira de equipe, a experiente Paula Pequeno, marcou 19 pontos e foi mais eficiente (45%).

A atacante realiza exames todos os meses para a contagem hormonal. O objetivo é comprovar que o nível de testosterona dela está dentro dos limites estabelecidos para que uma atleta atue no voleibol feminino.

Confira a entrevista que Tifanny deu ao Melhor do Vôlei sobre a sua estreia no Vôlei Bauru: “A nossa luta é diária, mas vejo que o Brasil está mudando aos poucos”

Tifanny foi eleita a melhor da partida na vitória sobre o Pinheiros, no dia 20/12. (Foto: Divulgação)

Fisiologia

No artigo “A multilateralidade da biologia”, o professor de educação física e fisiologista, Regis Machado Rezende, aborda com profundidade o tema. Especializado em vôlei, o profissional apresenta dados e estudos sobre a presença de atletas transexuais no esporte. No conteúdo, que pode ser acessado na íntegra aqui, o autor também defende maior responsabilidade ao tratar do tema.

“Recentemente temos sido inundados com discursos baseados em ‘achismos’, sobretudo porque alguns grupos de pessoas que foram historicamente excluídos, silenciados e invisibilizados, começaram a conquistar espaços e serem visibilizados. Formadores e formadoras de opinião, nem sempre estudiosas ou estudiosos da área esportiva, das ciências médicas ou biológicas, tem atacado a presença ­– que para nós deveria ser lida como a correção de erros históricos ­– de pessoas transexuais no contexto esportivo de alto rendimento. Equivocadamente fazem leituras tendenciosas de trabalhos científicos para dar validade às suas falas”, diz em um dos trechos.

Regis também detalha a atuação de Tifanny em suas primeiras partidas pelo Vôlei Bauru. Vale a pena entender melhor os números, pois muitos sites e jornais passaram a publicar que o desempenho da jogadora já a colocaria no topo das estatísticas, mesmo em tão pouco tempo.

“Em eficácia a Tiffany não figuraria entre as 10 melhores atletas da competição, dado o elevado número de bolas que recebeu e a quantidade de pontos convertidos. Em eficiência ela tem a maior média de pontos por set (também não a faz maior pontuadora da competição como as notícias tendem a dizer) e essa afirmação não a coloca como a melhor jogadora do torneio, aliás 45% de aproveitamento no ataque não a coloca entre as 5 melhores atacantes da competição (a jogadora líder nas estatísticas de ataque de acordo com os dados da CBV é Walewska Oliveira com 60% de aproveitamento no ataque) , ou seja, a atleta não é um ‘ponto fora da curva’, quando se percebe os números de ações de suas companheiras de equipe.

Ela foi bloqueada, foi defendida e errou ataques na mesma proporção de9 qualquer outra jogadora que disputa o torneio. Tiffany é oposta nata, logo irá receber mais bolas que suas companheiras visto a não obrigação de atuar como passadora e estar sempre livre para atacar. No jogo em que Tiffany fez 30 pontos (26 de ataque), ela recebeu 63 bolas, a segunda jogadora que mais recebeu bolas em seu time, foi a cubana Yohana Palacio com 38 bolas e 18 pontos no ataque, obtendo em eficiência 47% de aproveitamento, ou seja 6% a mais eficiente que Tiffany. Paula Pequeno que foi a terceira jogadora a receber mais bolas pelo Vôlei Bauru na partida, recebeu 14 bolas. Tiffany recebeu quase 5 vezes mais bolas que a companheira. É natural que tenha pontuado mais”.

A exclusão

A transexualidade, assim como todos os assuntos ligados às pessoas LGBTs, ainda é um tabu para uma boa parcela da sociedade. Quantas pessoas trans você conhece? Com quantas já estudou ou trabalhou? Pois é. Independentemente de ser homem trans ou mulher trans, a realidade é que eles existem, mas quase nunca ocupam (ou conseguem) ocupar os mesmos espaços da maioria, como escolas, escritórios ou mesmo aquele restaurante para comer uma pizza nos finais de semanas.

Quantos trans, hoje, podem andar tranquilamente pelas ruas sem medo de sofrer algum tipo de violência? O Brasil é o que mais mata a população LGBT no mundo. Os dados oficiais são assustadores. De acordo com pesquisas de ONGs, como o Grupo Gay da Bahia (GGB) e a Transgendender Europe (TGEu), o país é que mais mata transexuais e travestis no mundo.

Os dados oficiais mostram que, somente em 2016, um transexual foi morto a cada 25 horas. E esta estatística pode ser ainda maior, pois muitos casos não são registrados com a real motivação dos crimes. A expectativa de vida de um transexual não passa dos 35 anos, quando a média do Brasil é o dobro.

 

Voleibol: as diferenças físicas em jogo

A diferença de altura da central alemã Cristiane Fürst, que defende pelo segundo ano o Denso Airybees (Japão), e a sua companheira de equipe. (Foto: Divulgação).

Ao longo dos anos, o voleibol tem passado por grandes mudanças. Em 1998, a Federação Internacional de Voleibol (FIVB) oficializou a função de líbero, garantindo espaço para jogadores mais baixos e que teoricamente seriam mais limitados no ataque ou no bloqueio, mas com habilidades na recepção e na defesa e, consequentemente, mais agilidade e rapidez.

Como exemplo, temos o caso da bicampeã olímpica Fabi, que atuava como ponteira, mas logo mudou de posição e até hoje é considerada uma das melhores do mundo. Campeã da Superliga Feminina como central no Flamengo, Arlene também entrou no grupo das melhores líberos e, aos 48 anos, segue como atleta do Vôlei Bauru.

Mais recentemente, há o caso de Murilo Endres. MVP das Olimpíadas de Londres-2012 e com uma galeria de premiações individuais como atacante e como ponteiro, o atleta viu sua força no ataque diminuir com o passar dos anos e também com lesões recorrentes no esporte. Para seguir no Sesi-SP, ele aceitou o desafio de se tornar líbero devido ao seu bom desempenho no passe.

Historicamente, o voleibol asiático é conhecido pelo grande volume de jogo. Nas principais ligas, os clubes com maior poder aquisitivo investem na contratação de atletas estrangeiros mais altos e fortes, já que a média de estatura dos jogadores nacionais é menor em comparação com o de outras partes do mundo. A cada rodada, é comum os “gringos” marcarem bem acima de 30 pontos por partida.

O recorde entre os homens é do cubano Leonardo Leyva. Ele marcou, em 2013, 59 pontos a favor do Samsung Bluefangs no Campeonato Japonês. No feminino, a azeri Polina Rahimova anotou 58 acertos pelo AutoBody Queenseis, em 2015, também no Japão.

Há, porém, as pratas da casa. Com 17 anos e 1,92m, a chinesa Yingying Li quebrou o recorde de pontos em uma única partida da liga chinesa. Foram 48 acertos em cinco sets disputados. A oposto ainda recebeu o prêmio de melhor jogadora (MVP) da primeira fase do Campeonato Chinês.

Pelos títulos – sejam em clubes ou pela seleção sérvia – já conquistados, nem parece que Tijana Boskovic tem apenas 20 anos. Com 1,93m, a jogadora do Eczacibasi (Turquia) já é uma realidade. Na final do Europeu de 2017, ela marcou 29 pontos e, além do lugar mais alto do pódio, voltou para casa como a MVP do torneio continental.

Tanto Li quanto Boskovic deverão figurar nos próximos ciclos olímpicos com muito destaque. Sorte das suas respectivas seleções e azar das adversárias.

Vantagens ou características biológicas?

Mais alto e mais forte. Menor e mais habilidoso. Nem tão alto, mas com rapidez. Braços mais alongados ou pernas maiores. Há uma enormidade de tipos físicos no esporte. Em busca de melhores resultados e de lapidar novas promessas, muitos países apostam em estudos e na tecnologia para que os atletas aumentem os seus desempenhos.

Até agora, porém, a tecnologia não superou diversas características genéticas. Poucos são os que conseguem superar os quenianos em maratonas mundo afora, por exemplo. Tanto os homens quanto as mulheres do Quênia possuem pernas mais compridas e o calcanhar de aquiles mais largo e elástico. Estudos comprovam que essas características garantem aos atletas maior rapidez com menos energia gasta.

Em um artigo publicado no VICE, a jornalista Diana Tourjée apresenta um histórico de estudos e casos de atletas trans que passaram a competir em diversos esportes, incluindo as modalidades olímpicas. “Todos os atletas se beneficiam de vantagens biológicas, ou sofrem com desvantagens biológicas, em seus respectivos esportes”. Você poderá conferir o conteúdo completo aqui.

 

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39 Comentários em "Tifanny: a importância e a representatividade de uma atleta transexual"

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