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BLENDA – A HABILIDOSA LEVANTADORA DO TEMPO DO VOLEIBOL ARTE

 Por: Rodrigo de Araujo

Começo minha primeira matéria para o site Melhor do Vôlei, num tom diferente das entrevistas e reportagens que já fiz antes. Em clima de homenagem, me lembro de ter me encantado com Blenda Bartels, ou apenas Blenda, como era chamada pelos locutores esportivos da década de 80, entrando na quadra no Mundialito de 1982, em São Paulo com excelente técnica, alegria e garra para ganhar o vice-campeonato, vencendo jogos dramáticos, principalmente contra Coréia do Sul e o bicho-papão União Soviética. Antes disso, a mineira Blenda já vinha das seleções de base, esteve na seleção que venceu o histórico jogo contra o Peru, em Santo André, de 1981, foi integrante daquele “boom” do vôlei nacional, da famosa geração das musas dos 80, comandada pelo técnico Ênio Figueiredo, que também tinha Heloísa Roese, Izabel, Vera Mossa, Marta, Dulce, Helga, Eliana Aleixo, entre outras. Foi a principal levantadora do Minas Tênis Clube por aquele início de década, sendo campeã mineira por várias vezes, para encerrar a carreira “profissional” nos times estrelares da Supergásbras(RJ) e Lufkin (Sorocaba/SP) com precoces 24 anos, em 1986. “Eu jogava desde os 15 anos no adulto.Já tinha outros planos: fazer faculdade e constituir família”, explica umas das principais levantadoras brasileiras dos anos 80 ao lado de também excelentes jogadoras como Célia, Jaqueline e Ivonete.

Na entrevista abaixo, Blenda conta mais sobre sua carreira para quem ainda não a conhece e mata as saudades dos fãs do voleibol brasileiro. Destaque para as relíquias fotográficas que a própria enviou para nós. Guarde-as contigo que merece!

 

Quando você começou a Jogar? Você sempre foi levantadora?

Comecei a jogar no  Minas Tênis Clube, em 1972. Na verdade, sempre “brinquei” de voleibol em casa e no colégio, porque meus pais foram jogadores também.Quando eu era mirim, jogava levantando e era a mais baixa da equipe; No juvenil, era a mais alta e os técnicos passaram a achar que eu deveria ser cortadora. Além de alta eu tinha muita força. Foi uma fase complicada, porque eu gostava e queria ser levantadora. Jogava então assim: no Minas Tênis Clube cortando (ponta ou saída) e na seleção levantando.

 

 

Quais times você jogou?

 

No Minas Tênis Clube, de 1972 a 1983, na Supergásbras em1984 e na Lufkin (Sorocaba), em 1985

 

Qual o período que você atuou nas seleções brasileiras ?

 

Na Seleção infanto- juvenil, em 1978,Na Seleção juvenil – 1980 e 1981, Na Seleção adulta em 1981, 1982, 1983 e 1984 ( fui cortada antes das Olimpíadas de Los Angeles)

 

 

Quais os principais títulos ou colocações?

 

Fui campeã de Belo Horizonte e de Minas Gerais, do mirim ao adulto, várias vezes, Campeão brasileira estudantil e universitária, Mundial Juvenil – sexto lugar ( fiquei entre as 12 melhores do campeonato ), Universíade – terceiro lugar, Sul - Americano Infanto – segundo lugar, Sul Americano Juvenil – segundo lugar, Sul Americano Adulto  –primeiro lugar, Campeão Brasileira de clubes ( Minas Tênis Clube ), Campeã Carioca ( Supergásbras ), Campeã Jogos Abertos de SP ( Lufkin )

 

 

 

Recentemente, você foi citada pela ex-jogadora da seleção brasileira Ana Lúcia, no programa Roda de Vôlei, da BandSports, como um ícone do tempo do voleibol arte. Como você explica essa época em que você participou da seleção, na época da famosa "seleção das musas" no início dos anos 80?

 

Realmente o voleibol era outro, nós tínhamos que ter habilidade, pensar na hora da jogada para colocar a bola no lugar certo. Éramos mais baixas e mais fracas fisicamente do que a atual geração, mas tínhamos arte e técnica. Não podia dar dois toques, nem conduzir na defesa e no passe, assim os fundamentos tinham que ser quase perfeitos. Não existia líbero, as cortadoras altas passavam e levantavam.

 

 

 

Como vocês perceberam as mudanças do vôlei, como esporte amador, que tinha pouco público nos ginásios e de repente, atrás da televisão, começaram a jogar em ginásios lotados ?

 

Estávamos acostumadas com família, amigos e pessoas que gostavam de voleibol assistindo os jogos. O público presente nos jogos e acompanhando o voleibol significou a valorização dos atletas e da modalidade, passou a ser um ”produto de consumo”.

Foi legal toda esta transformação, passamos a ser reconhecidas nas ruas, termos fotos nos jornais e darmos entrevistas sempre.

  

 

Infelizmente, em muitos jogo da sua geração, pareceu que o Brasil podia ter se saído melhor em alguns campeonatos do que realmente aconteceu. Por exemplo, em 1982, vocês foram vice-campeãs do Mundialito, vencendo jogos incríveis contra a Coréia e  a União Soviética, mas não foram tão bem, logo em seguida, no Mundial. O que faltava para a seleção naquela época?

 

Na verdade, faltava intercâmbio e informações sobre os outros países. Jogávamos pouco fora do Brasil, era só na hora do campeonato mesmo. Conhecíamos as seleções só no momento do jogo.

 

A primeira vez que vimos a China jogar, no Mundial Universitário, perdemos por 3 x 1. Após as boas jogadas, batíamos palmas. Era muita admiração por tudo novo que elas faziam e nunca tínhamos visto.

 

Hoje, com um grupo seleto de 20 atletas, se joga mais pela seleção, fazendo intercâmbio, conhecendo todas as seleções dos outros países.

 

 

 

Você fez parte da primeira geração do vôlei com destaque na mídia, onde algumas jogadoras eram citadas como musas, convidadas a aparecer em filmes, comerciais de TV. Você acha que pode ter  aparecido algum "salto alto"?

 

Não acho que houve vaidade ou “salto alto”, jogávamos por amor a camisa, não se pensava em ser profissional do voleibol. Acho que minha geração foi usada como “cobaia” para a parte técnica e física, e para toda esta “estrutura” que virou o voleibol brasileiro.

 

 

Tinha muita rivalidade entre as levantadoras? Como era a relação entre você, Célia, Jaqueline, Ivonete, Ana Richa as principais levantadoras dos anos 80?

 

A grande rivalidade era dentro da quadra, cada uma defendendo seu clube. Como não existia o troca-troca de equipe: a equipe do Fluminense era a “cara” da Célia, a do Flamengo da Jaqueline, do Paulistano da Ivonete e do Minas, a minha. A Ana Richa veio depois, quando já tínhamos empresa-equipe, onde existia o “profissionalismo” remunerado.

A disputa maior era entre Célia e Jaqueline por serem do mesmo estado e passar o ano inteiro uma jogando contra a outra.Somos de gerações diferentes.

 

Vou fazer uma análise de cada uma no meu ponto de vista:

Célia: ela era um ícone de uma geração, líder dentro e fora da quadra, muito boa levantadora, mas era baixa;Jaqueline: muito boa levantadora, mas pensava nela, não agia para o grupo;Ivonete: boa levantadora, mas seu ponto forte era a defesa;Ana Richa: boa levantadora.

 

 

 

Nos anos 80, as seleções brasileiras eram modificadas muito rapidamente a cada ano. Você não acha que isso atrapalhava o rendimento da seleção nos campeonatos?

 

Nos anos 80, não existia um trabalho voltado para a seleção, estava lá jogando quem estava “bem” naquele momento. (nos clubes). Jogava-se mais no Brasil, em campeonatos metropolitanos, estaduais e brasileiros (estudantis, universitários e pelos clubes).

 

Agora, não existe, por parte da CBV, um planejamento a longo prazo para os clubes, a        entidade funciona totalmente voltada para as seleções de base e adulta. Tanto que os técnicos não conhecem os atletas, por isto criaram a tal seletiva para as seleções infanto e ficam 4 anos com este grupo, até as melhores se encaixarem na seleção adulta.

 

 

Quais as jogadoras do Brasil que você mais gosta (ou gostou) das últimas seleções ?

 

Por ter sido uma jogadora técnica e com bons fundamentos, gosto daqueles jogadores que sabem defender, passar, bloquear, sacar, cortar e colocar a bola para cima de toque.

 

 

Você tem jogado no time de Masters do Minas? Queria que você divulgasse mais esse campeonato. Deve ter muita gente querendo assisti-las e matar as saudades de algumas jogadoras também famosas do voleibol nacional.

 

O próximo campeonato será em Brasília, na AABB, no período de 06 a 10 de setembro.Não sei se vou jogar, operei o joelho há quatro meses e continuo em recuperação. 

  Fotos: Arquivo

 

 



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