Cilene Rocha Drewnick
Por
Cleverson Guedes

Habilidade e técnica. Essas são palavras que podem descrevem
esta atleta. Brasiliense nascida no dia 19 de junho de 1967,
tinha como forte característica o bom desempenho no passe. Jogou
em grandes equipes do Brasil e encerrou a carreira
brilhantemente na Liga Italiana.
O Túnel do Tempo do Melhor do Vôlei conversa com Cilene
Fallero Rocha Drewnick, ponta/oposta de 1,82 m e que nos conta
toda sua trajetória dentro da seleção brasileira e pelos clubes
onde passou.
A carreira de Cilene
1981/1982 - Minas Brasília Tênis Clube
1983/1984 - AABB Voleibol Clube
1985/1986 - Transbrasil Voleibol Clube
1987 - Pirelli Voleibol Clube
1988/1991 - Sadia Voleibol Clube
1991/1992 - Blue Life/Recra
1992/1993 - Lácqua Difiori/Minas
1993/1994 - Leite Moça/Sorocaba
1994/1996 - Cepacol/São Caetano
1996 - Clube Atlético Paulistano
1996/1997 - Mizuno/Uniban/São Caetano
1997/1998 - Mappin/Pinheiros
1998/1999 – Blue Life/Pinheiros
1999/2000 - Foppapedretti Voleibol Clube
Títulos por clubes
Bicampeã brasiliense – Minas Brasília Tênis Clube 1982
AABB Voleibol Clube 1984
Heptacampeã paulista – Transbrasil Voleibol Clube 1985 e 1986
Sadia Voleibol Clube 1988, 1989 e 1990
Blue Life/Recra 1991
Leite Moça/Sorocaba 1993
Bicampeã dos Jogos Regionais de São Paulo - Blue Life/Recra 1991
Leite Moça/Sorocaba 1993
Bicampeã dos Jogos Abertos do Interior de São Paulo - Blue Life/Recra
1991
Leite Moça/Sorocaba 1993
Tetracampeã da Liga Nacional – Sadia Voleibol Clube 1988 a 1991
Lácqua Difiori/Minas 1992/1993
Campeã mundial de clubes 1991 – Sadia Voleibol Clube
Vice-campeã sul-americana de clubes – Mizuno/Uniban/São Caetano
1997
Campeã da Copa da Itália - Foppapedretti Bergamo 2000
Campeã do Campeonato Europeu de Clubes - Foppapedretti Voleibol
Clube 2000
Títulos pela seleção
Campeã sul-americana juvenil – 1984
Campeã mundial juvenil – 1987
Campeã do Torneio Internacional da Alemanha – 1990
Terceiro lugar nos Jogos da Amizade – 1990
Vice-campeã Pan-americana – 1991
Vice-campeã da Copa Hong Kong - 1991
Bicampeã sul-americana – 1991/1997
Terceiro lugar na Copa Saraiva – 1992
Vice-campeã da Copa BCV – 1993
Premiações Individuais
Melhor jogadora do campeonato brasileiro de clubes
1982/1984/1985
Melhor jogadora da Liga Nacional 1989
Melhor ataque do campeonato paulista 1991
Melhor recepção do campeonato Mundial de Clubes 1992
Melhor saque do campeonato sul americano de clubes campeões 1997
Melhor líbero do Campeonato Europeu de Clubes 2000
Cilene, quando e em que clube você iniciou sua carreira dentro
do voleibol? Alguém foi responsável por te incentivar o início
da prática desse esporte? Quem foi seu primeiro ídolo no
voleibol?
Comecei minha carreira em 1980 no Minas Brasília Tênis Clube na
cidade de Brasília, sendo os meus pais as pessoas que mais me
incentivaram a iniciar no voleibol. Renan Dalzoto foi um dos
meus primeiros ídolos dentro do voleibol.

Cilene, Inaldo e Ana Moser
Quem te descobriu em Brasília e te indicou pra jogar em São
Paulo na Transbrasil? E como foi a reação da família por você
ter que sair de casa cedo e ter que morar longe sem eles? Em
algum momento eles tentaram te influenciar a desistir?
Foi o Ramon Papi (diretor da Transbrasil) que me descobriu e me
levou para São Paulo para jogar na Transbrasil. Foi muito
difícil para minha família ir embora para São Paulo, sempre fui
muito ligada a eles, mas assim eles sempre me apoiaram.
Como foi o início da carreira na Transbrasil? A pouca idade e a
pressão por competições, concentrações pesaram para que algum
momento você pensasse em desistir?
Meu início de carreira na Transbrasil foi muito bom. No início
foi difícil, mas como experiência de vida e amadurecimento posso
dizer que foi muito importante para mim.
Em 1987, após ter sido bicampeã paulista na Transbrasil, você
transferiu-se para a Pirelli. Teve algum motivo em especial pela
mudança?
Eu já tinha assinado meu contrato com a Transbrasil, quando
recebi a proposta da Pirelli; achei que era um time bom, e que
gostaria de explorar a chance. Conversei com dois grandes amigos
meus, Inaldo e Bacalhau, explicando que gostaria de ir para a
Pirelli por vários motivos, e se eles poderiam cancelar meu
contrato. Eles concordaram com minha saída, mas no fundo ficaram
chateados e falaram que logo iriam me trazer de volta, o que
aconteceu quando formaram a Sadia.

Equipe da Pirelli temporada 1987, em cima: Filó, Vânia Mello,
Rejane Fritz, Ana Paula Pissoler , Claudia Leal, Cilene e Tina.
Embaixo: Sérgio Negrão, Kerly, Adriani Paulo eCora Barreira.
Qual foi sua primeira convocação pra seleções de base e em que
competição? Você ficou surpresa ou achava que já era o seu
momento de estar representando o país?
Minha primeira convocação foi em 1982, só que torci meu pé no
dia da apresentação. Mas tive outra chance no ano seguinte em
1983 para Seleção Infanto Brasileira.
Como foi o Sul americano juvenil de 1986? A perca da seqüência
de títulos (82-84) para o Peru e dentro de casa foi frustrante?
O que foi fatal naquela derrota?
Foi bom no geral o campeonato. O grupo era muito jovem e unido.
Apenas não deu certo, não vencemos taticamente o Peru.

Sul-americano 1986
Como foi o título do Mundial Juvenil de 1987?
Foi marcante! Ganhar o título na casa do adversário (Coréia do
Sul) foi emocionante! Eu não esqueço nunca quando fechamos o
último ponto do jogo, e todas comemorando, chorando, e aquele
silêncio no ginásio durante 1 minuto. De repente todos se
levantaram e começaram a nos aplaudir de pé! Nosso primeiro jogo
foi contra a Rússia, que era considerada uma das favoritas, e
felizmente jogamos muita bola! Ganhamos, e acho que essa vitória
fez a diferença. A confiança tomou conta do grupo, nos
empurrando para o título.
Como foram os anos de Sadia? Fale de sua relação com as
jogadoras, principalmente a Cecília Tait, adversária do Brasil
muitas vezes nos jogos de seleção.
Foram anos inesquecíveis! Minha relação com as jogadoras era
muito boa. Tive uma simpatia muito grande com a Cecília, nos
demos muito bem, até fomos desfilar juntas na Mangueira!

Ida, Cilene, Cecília Tait e Ana Moser
A Sadia foi construída para ser uma equipe de estrelas. Como o
técnico administrava isso para que o favoritismo não
atrapalhasse nos jogos?
Ele sabia lidar muito bem psicologicamente com todas, ele fazia
com que a Sadia fosse uma família; dessa forma fez a diferença.
Nós treinávamos muito, não importava o favoritismo! Tínhamos que
dar sempre 100%, 120 % e ainda não era suficiente. Mas ele sabia
a dose certa, isso era muito bom.
O grande número de estrelas prejudicava a equipe de alguma
forma? Como controlar tantos egos ao mesmo tempo? Havia
problemas entre as jogadoras? Como era sua relação com o Inaldo?
Não, só ver pelos resultados que não havia sapato na equipe;
respeito e profissionalismo foram fundamentais para controlar
qualquer tipo de ego. Havia sim problemas na equipe, como em
qualquer relação, mas nada que não pudesse ser resolvido com um
bom e aberto diálogo. O Inaldo era uma pessoa maravilhosa, de um
coração gigantesco e eu tinha uma relação muito honesta com ele.
Posso dizer que ele era um grande amigo.
Como foi o título do Mundial Interclubes em 1991 na equipe da
Sadia? Vocês acreditavam que eram favoritas para a competição ou
foi uma surpresa para a comissão técnica e jogadoras? De todos
os títulos da Sadia, qual foi o mais marcante para você?
Nós chegamos à competição como uma das favoritas junto com a
Colgate e o time do Karpol (Rússia). Conseguimos fazer
excelentes jogos; o time estava muito concentrado, unido e
preparado para a batalha e deu tudo certo! Foi muito bom vencer
esse Mundial! Todos os títulos para mim foram especiais!

Em pé: Márcia Fu, CecíliaTaiti, Ida, Luiza Machado, Cilene, Ana
Moser. Sentadas: Stela Santos, Maria Alice Santos, Ana Maria
Volponi, Vera Marta Torres, Ana Néri Klock e Fernanda Venturini.
Com o Plano Collor, muitas equipes de voleibol perderam
patrocínio, e a Sadia foi uma delas. Nessa época, você chegou a
receber proposta de ir para o exterior? Por que preferiu se
transferir pra equipe da Recreativa?
Sim, recebi uma proposta do Japão, porém estávamos vinculadas
com a CBV e achava que não era hora de sair do Brasil. Resolvi
aceitar a proposta da Recreativa, porque eles formaram um time
jovem, mas mesclando nomes da seleção (Ana Lúcia, Ana Volponi,
Tina, entre outras). Ribeirão Preto é uma cidade muito gostosa,
com um público sempre muito acolhedor: e era o único time em São
Paulo e eu gostaria de estar um pouco mais próxima do meu
marido, que estava jogando basquete no Sírio em São Paulo.

Equipe da Blue Life/Recra 1991/1992, em pé: Ana Lúcia Camargo
Barros, Tina, Josiane, Shilly, Andréa Moraes e Virna. Agachadas:
Gisele, Estefânia, Ana Maria Volponi, Kátia e Cilene.
Como foi a sua primeira participação na seleção adulta nos Jogos
da Amizade de 1990, quando vocês acabaram com a escrita de
derrotas para o Peru e conseguiram a medalha de bronze?
Nada acontece por acaso. Foram árduos dias, semanas, meses de
trabalho para atingir um alto nível de voleibol. A relação
técnico e atleta era muito boa, o nível de treinamento era
excelente, fazendo com que os resultados se tornassem visíveis
através de conquistas importantes. Subir no pódio é sempre
inesquecível! O time estava muito unido, era um grupo muito bom,
boas memórias, grandes amigas!
No Mundial de 1990, vocês tiveram uma colocação abaixo da de
1986. Algum(s) fator (es) explica o que aconteceu? Como foi
estar nessa competição?
Isso é muito interessante! Acho que não me lembro de ter
treinado tanto na minha vida, como nesse ano! Exaustão,
dedicação, trabalho psicológico, e muito mais! Estávamos no auge
da parte física, tática e técnica! Nós estávamos confiantes de
que faríamos um bom campeonato.
Treinamos por um mês taticamente, tecnicamente para jogar com os
Estados Unidos no nosso primeiro confronto no Mundial.
Infelizmente elas também devem ter estudado muito o nosso time,
neutralizaram todas nossas jogadas. Acho que se a vitória
viesse, seguiríamos muito bem no campeonato. Infelizmente não
deu.

Mundial de 1990
Como você lidou com o suicídio do Inaldo?
Muito chocante! Difícil, mas a vida tem que continuar.
No sul-americano de 1991 você assumiu o posto de titular na
equipe. Como foi a conquista de um campeonato com a temível
equipe peruana e atuando entre as titulares e dentro do
Ibirapuera?
Foi emocionante. Jogamos muito bem e o time estava perfeito!
Bonito de ver! Resultado de um longo trabalho (anos): demorou
mais veio. O público foi fantástico. Parabéns para todos aqueles
que nos empurraram e que vibraram a cada ponto; foram o décimo
terceiro jogador. Inesquecível! Obrigada e parabéns a todos.

Os jogos de Havana foram, no geral, o que a equipe esperava?
Aquela equipe cubana de 1991 já usava de muita “catimba” contra
as adversárias? Conte-nos uma lembrança daquele torneio.
O time Cubano era muito forte já nessa época. Nós estávamos
começando a enfrentar Cuba praticamente de igual para igual. Não
era fácil, todos sabem da potência que era Cuba nessa época.
Infelizmente não conseguimos o ouro, mas o segundo lugar foi
muito bom. Uma grande lembrança que tenho do campeonato era que
o nosso apartamento era próximo do restaurante da vila e todos
os dias, às 7 da manhã, nós acordávamos com uma banda de música,
que tocava e cantava musica cubana (caribenha). Não agüentávamos
mais! Por um bom tempo não pude ouvir música caribenha!
O Brasil não teve muita sorte no sorteio das equipes na Copa do
Mundo de 1991 e acabou ficando somente em oitavo lugar. Além da
difícil chave, algum outro motivo explica essa ruim colocação no
campeonato?
Não.
Como foi a sua ida para os jogos olímpicos de Barcelona? Você
achou que as doze atletas escolhidas pelo Wadson foram realmente
as melhores naquele momento? Vocês acreditavam que podiam ter
ido mais longe que o quarto lugar?
Estar numa olimpíada já é uma grande honra. Representar o país
numa olimpíada é o sonho de qualquer atleta no mundo! Cada
técnico tem seu ponto de vista, para ele as 12 que foram eram as
melhores, e nossas expectativas eram para uma medalha olímpica.

Treino nas Olimpíadas de Barcelona 1992
Como foi a emoção de você estar entre as doze atletas que pela
primeira vez em toda história derrotou uma seleção chinesa
adulta? Vocês acreditavam que poderiam superá-las, visto que
elas eram atuais vice-campeãs mundiais?
A vitória é sempre marcante, ainda mais contra equipes como
China, Rússia, Cuba.
Como foram os playoffs em Barcelona (quartas de final e
semifinais)? A mídia em geral não acreditava que vocês fossem
tão longe. Conte-nos como foi a sensação de ficar muito próximo
da tal sonhada medalha olímpica.
Os Playoffs foram uma pedreira! Adversários muito bem preparados
para nos derrubar, assim como nós também estávamos. Como eu
disse, a expectativa era para uma medalha, um pouco frustrante
não tê-la conseguido.
Você era titular da equipe, mas, com a chegada do Wadson, perdeu
espaço pra Hilma, que era atleta dele no Minas. De que forma
isso te afetou?
Não julgo as decisões dos técnicos; eles têm seus motivos, e
temos que aceitá-los e ser profissional o suficiente para ajudar
o time de alguma forma.

Quando começaram as crises com o Wadson? É correto dizer que
havia um racha no elenco, entre as mais experientes e as mais
novas? Como você lidava com essas situações?
Ele tinha seu estilo (veio de escola militar) e acho que tudo
seria um processo de adaptação, tanto da parte dele, quanto da
nossa. Acho que posso dizer que a adaptação foi muito difícil
para ambas as partes. Meio complicado falar sobre isso!
Como foi a conquista da Liga Nacional pelo Minas, o primeiro da
história do clube, vencendo a Colgate na final? Por que sua
permanência na equipe foi tão curta?
Fantástica! Eu e o Cebola já tínhamos trabalhado juntos antes
(seleção com Inaldo); nossa comunicação era fácil. Liderar um
time jovem foi uma experiência importante.
Conseguimos fazer um trabalho excepcional. O Minas Tênis
Clube tem uma estrutura para atletas exemplar, sem contar a
torcida que realmente faz a diferença.
Minha permanência foi curta, porque o Leite Moça fez uma
proposta muito boa, e voltar a jogar com grandes amigas pesou na
minha decisão. Adorei jogar no Minas Tênis Clube, adorei Minas
Gerais! Não vou me esquecer nunca. Para vocês todos de Minas, um
grande e carinhoso abraço.
Após a conquista da Liga Nacional pelo Minas, você voltou a
enfrentar a Colgate no Sul-Americano de Clubes, no Peru, e desta
vez perderam. O que mudou de uma competição para outra? Havia
desentendimentos no grupo? Como o Cebola, técnico do time, se
comportava nessas situações?
Infelizmente não conseguimos o título por excesso de confiança e
vaidade.
O Sul americano de 1993 foi uma verdadeira decepção para toda
equipe e para os amantes do voleibol em geral. Ninguém esperava
aquele resultado, pois o Peru estava muito desfalcado. Se você,
Tina e Ana Moser estivessem ali, a situação teria sido outra?
Acho que não!
Como foi a participação da seleção no Grand Prix em 1993? O
quarto lugar foi além do que vocês esperavam? Como foi chegar à
fase final e não conseguir uma medalha?
Acho que fizemos muito bem, infelizmente não conseguimos
medalha.

Grand Prix 1993
Você achou justa a decisão da CBV em retirar o Wadson Lima do
comando da seleção após os maus resultados de 1993? Depois de
tudo que aconteceu você chegou a conversar com ele?
Pensando em resultados acho que a decisão foi correta. Quando o
Bernardinho tomou o posto, antes de começar a temporada, ele
conversou pessoalmente com várias atletas que estavam envolvidas
com a seleção no ano anterior, para entender o que se passava.
Ele é um técnico fenomenal! E trouxe resultados rapidamente.
Como foi a sua passagem pela equipe do Leite Moça? Como era a
convivência com Caren Kemner e Paula Weishoff, que um ano antes
haviam tirado o bronze do Brasil em Barcelona?
Minha passagem pela equipe fora boa e minha relação com as
americanas era ótima e até hoje ainda mantenho contato com elas.
Você sentiu-se injustiçada por não estar na equipe que foi ao
Mundial de 1994 e em Atlanta 1996? Você acha que houve algum
motivo em especial para que o Bernardinho não te convocasse no
período de 1994 a 1996?
Não me senti injustiçada. Eu fiz uma escolha pessoal, casei e
gostaria de passar mais tempo com meu marido e minha família;
estava muito cansada. Toda a escolha na vida tem seu preço, eu
não me arrependo de nada.
Como foi a Superliga pelo Mizuno/Uniban em 1996/1997, na qual
vocês chegaram desacreditadas e conseguiram um honroso segundo
lugar? Você teve uma atuação destacada nas semifinais, mesmo
contundida. De onde tirou forças para jogar tão bem, mesmo com
tantos problemas?
Foi um dos meus melhores campeonatos. Estava fácil atacar com a
Fofão levantando aquelas bolas maravilhosas para mim e me senti
muito bem no time. Contusão é parte da vida de um atleta e eu
não queria deixar o time numa importante decisão.

Como foi o retorno pra seleção em 1997? Foram três competições e
dois títulos. Na copa dos campeões você atuou algumas vezes como
líbero, foi difícil se adaptar a essa nova posição?
Foi um ano tranqüilo na seleção, guardo boas lembranças. Uma das
minhas principais funções no time era passar e defender, ser
líbero era uma questão de adaptação à regra.

Cilene em amistoso da seleção contra o Japão em Curitiba em 1997
Você transferiu-se na temporada 1997/1998 para o Pinheiros, que
estava sendo patrocinada pelo Mappin, equipe essa cheia de
estrelas como Vera Mossa, Ana Flávia, Ida e até a croata
Kirillova. A equipe, porém, não correspondeu às expectativas e
não conseguiu nenhum título. Quais os motivos que levaram a
acontecer isso com a equipe? O que aconteceu com a Ida e a Vera
Mossa que abandonaram a equipe? A comissão técnica foi
responsável pelos muitos problemas que aconteceram?
O Mappin investiu muito dinheiro, e queria ver resultados. Era
um time extremamente vaidoso e com atletas de forte
personalidade. Infelizmente algumas atletas estavam mais
preocupadas em chamar atenção do que jogar voleibol.
Infelizmente foram dispensadas do time por motivos técnicos.
Quais motivos a mantiveram na equipe do Pinheiros na temporada
posterior, sendo que haviam equipes com patrocinadores mais
fortes, como Rexona e Leites Nestlé?
Eu fiz um contrato de dois anos com o time, por isso não pude
sair.

Você foi pra Itália na temporada 1999/20000. O que a levou a ir
jogar na Europa, sendo que havia grandes equipes na Superliga
ainda, principalmente com o retorno do Flamengo?
A proposta foi muito boa e o time era bom, e eu achei que era
hora de jogar no exterior, conhecer outra cultura, aprender
outra língua, e tentar conquistar títulos que eu gostaria de ter
no meu currículo.
Como foi a temporada na Itália? Você esteve ao lado de feras
como a Gaby Perez e Mireya, dentre outras; foi fácil se adaptar
com as colegas devido o idioma? O público foi receptivo com
você? Como foi vencer a Champions League, o maior campeonato de
clubes do mundo? Quem eram os principais adversários?
Muito boa a temporada lá! Minha adaptação foi fácil, rápida e o
time me recebeu muito bem. A vantagem era que já conhecia
algumas jogadoras (Gaby, Cebukhina,
Piccinini, etc.), mesmo as que eu não conhecia ainda, criamos um
vínculo muito legal, Maurizia Cacciatori, Rinieri, Elisa
Galastri, todas! Sem contar Gaby, grande companheira, nos
falamos até hoje. Quanto ao público foi muito simpático com a
minha pessoa, e a conquista do campeonato foi um grande feito!
Foi uma pedreira! Vencemos as russas na final, num “jogão” de
bola! Adorei ter trabalhado
com Marco Bonitta! Ele é um excelente técnico; trabalhamos muito
bem juntos.

Cilene e companheiras com o troféu da Champions League
Você acabou atuando de líbero na equipe italiana, mas quando foi
contratada você veio pra assumir essa posição ou foi no decorrer
do campeonato que você mudou de posição? Foi difícil de se
adaptar? Qual a diferença que você sentiu de atuar no fundo de
quadra lá em relação à Superliga, já que aqui você era
responsável por passe também nas equipes que atuou?
Eu fui contratada para jogar de oposto à levantadora. Na
Alemanha, eu machuquei minha panturrilha de novo, e tive que
ficar sem andar por uns 8 dias, e só voltaria a jogar
(especificamente começar a saltar) em 20 dias, mas podia me
mexer bem, pois a dor era para saltar. Marco Bonita conversou
comigo que não queria que eu perdesse ritmo de jogo, e me pediu
para jogar de líbero: deu certo. Quando estava pronta para
saltar depois de um mês, conversamos e continuei de líbero.
Quanto aos saques, você se sente jogando em um campeonato
internacional, vem saque e ataque de todo tipo que você possa
imaginar: russo, cubano, italiano, alemão, brasileiro, etc.
Qual a diferença do nível do voleibol da liga italiana para a
brasileira, em relação aos treinamentos e jogos? Foi difícil a
mudança e adaptação?
A Liga Italiana é longa, pois existem muitos times, e ainda tem
times que participam da Copa Européia e dessa forma a gente não
pára. Joga-se três vezes por semana, sem contar todas as
viagens, o que às vezes levam um dia.
Apesar da conquista da Champions League, o Bergamo não fez um
bom campeonato italiano, perdendo para o Vicenza logo na
primeira fase dos playoffs. Quais foram os motivos daquela
surpreendente derrota?
Acho que o time estava muito cansado. A maratona de jogos na
copa e no campeonato não estava dando tempo para recuperar, mas
infelizmente foi uma pena. Vicenza jogou muito bem! Não
conseguimos nos recuperar! Pena.
Qual motivo levou-a a parar na temporada 1999/2000, visto que
tinha ainda idade para atuar mais tempo? Recebeu alguma proposta
pra continuar ainda da Itália e do Brasil principalmente, visto
que Flamengo e Vasco montaram grandes equipes?
Queria ser mamãe e porque as contusões estavam me incomodando.
Tive proposta para jogar na Itália, e Turquia, mas achei que era
minha hora de aposentar a joelheira.

Qual a diferença do voleibol do início de sua carreira para o da
final, em relação à parte de treinamentos principalmente? Acha
que o voleibol atual pecou em algo com tantas mudanças que teve,
em relação ao voleibol do passado?
Acho que agora o desgaste é menor em todos os sentidos.
Treinávamos muito: 7 a 8 horas por dia, muita parte física!
Éramos meio que cobaias (no bom sentido) para que os técnicos
juntos conseguissem achar o melhor método de treinamento para
que nós rendêssemos o máximo nos jogos.
Fizemos ginástica, dança aeróbica, escadaria, muita musculação,
muita bicicleta, longas corridas, fizemos atletismo (saltos,
corrida, etc.), levantamento de peso, que por sinal foi um dos
melhores processos que já vi e continuo a fazer (resolvi ser uma
cobaia sozinha para explorar essa idéia, junto com meu marido e
com Edma – campeão de levantamento de pesos), natação, e muito
mais!
Acho que hoje em dia, depois de todas essas experiências, os
técnicos já têm um calendário de treino bem elaborado, o que
facilita a vida de todos, e o sucesso desse aperfeiçoamento se
vê através das constantes vitórias brasileiras. O vôlei está bem
melhor agora, bonito de assistir, e não mais tão longo!
Como foi a sua carreira com relação às contusões? Teve alguma
grave que a impediu de participar de alguma grande competição?
Não foi tão ruim assim. Muitas torções de tornozelo, duas
torções de joelho, tendinite aguda no cotovelo, tendinites no
ombro, desvio de vértebra (costas) que me matava de dor e que me
paralisavam (não tinha como jogar)! Dedos machucados e minha
panturrilha, que estirou uma vez, e acho que nunca consegui
recuperar de vez! Acho que não foi tão ruim, por que não tive
que fazer nenhuma cirurgia difícil, graças a Deus.
Se voltasse no tempo, o que você faria e que não fez? Alguma
decisão errada que tomou, que se fosse hoje não teria tomado?
Não me arrependo de nada.
Por que decidiu ir para os EUA iniciar a carreira como técnica?
Como está sendo a experiência? Como é a estrutura da equipe que
você trabalha? Pensa em voltar para o Brasil ainda e atuar como
técnica aqui?
Não vim para os EUA para ser técnica, apenas vim com meu marido.
Ele veio estudar MBA e eu vim grávida de 6 meses, decidida a me
dedicar 150% à família.
Recebi muitas propostas para ser técnica de voleibol de clubes e
de escolas superiores. Treinei um grupo de meninas de 13 -14
anos em Tampa, uma graça. Depois nos mudamos para Dallas, e
decidi seguir meu próprio negócio relacionado com esportes.
Porque os EUA não conseguem criar uma liga profissional de
vôlei, mesmo com todo o sucesso do esporte nas universidades?
Estou aqui já faz 5 anos! O voleibol fica muito a desejar na
parte da mídia, e muito difícil competir com NFL, NBA, NHL,
beisebol, etc. Dessa forma, parentes, família, universitários,
não ficam tão interessados, porque não reconhecem o voleibol
como um esporte profissional, e sim apenas amador e para
diversão, porque eles só conhecem os esportes aqui dentro dos
EUA.
Mas tudo isso deve -se ao trabalho da Confederação dos EUA, como
o Nuzman na época da CBV, transformou o voleibol em profissional
e não mais amador. Dessa forma entram mais patrocinadores, TV,
público e investidores!
Aqui o mercado não e fácil para eles, eles vivem de atletas que
são tiradas das universidade, a cultura aqui e muito diferente.
Os jovens saem de casa com 18 anos, e tem que se virar. Como não
existem ligas como no Brasil, Europa, os EUA não tem a chance de
desenvolver grandes talentos como no Brasil.
Pode ser que daqui a um tempo vocês vejam os EUA no topo de
novo. Tenho percebido um crescimento gigantesco do voleibol de
clubes por todo os EUA. Eles têm ligas regionais por faixa
etária, e depois ligas nacionais e vocês não fazem idéia do que
é isso: mais de 5.000 crianças de 11 a 19 anos jogando num
centro de convenções (isso em regionais)!
Isso vai fazer com que o voleibol cresça mais e mais por aqui.
Acho que isso é um dos fatores, porque os EUA não conseguem se
manter: depois que as atletas participam de jogos pela seleção,
elas voltam para estudar e se formar, outras que se destacam
mais, jogam no Brasil, na Europa, etc. Mas a estrutura para o
esportista aqui nos EUA é fenomenal: “aos trancos e barrancos”,
vira e mexe, os EUA dá uma beliscada em algum torneio. Falta um
Nuzman por aqui para fazer o voleibol ser o fenômeno que é no
Brasil, mas a gente não quer: deixa só o Brasil ganhar, não é?

Tina, Leila, Cilene e Ana Moser
Com que jogadoras você teve mais afinidade? Ainda mantém contato
com ex-colegas?
Ainda mantenho contato com algumas, tenho grandes amigas ainda!
Com relação à seleção feminina, quais são as suas perspectivas
para o futuro? Acredita que a nova geração que foi campeã nas
categorias de base vai conseguir dar continuidade à seqüência de
títulos que a atual está tendo?
Eu me afastei do voleibol brasileiro, estou meio desligada,
infelizmente não posso responder, apenas espero que continue
sendo um sucesso!
Como era a Cilene fora das quadras? Nos intervalos entre jogos,
concentrações e viagens, o que você gostava de fazer?
Estar com meu marido, sempre! Curtir muito a vida. Ela é linda
demais! Nos intervalos descansar, descansar, descansar.
Como é sua vida hoje fora do vôlei? Você tem uma filhinha,
quantos anos ela tem? Será que teremos uma outra jogadora de
vôlei na família?
Maravilhosa, curtindo muito esse momento delicioso de ser mãe! A
princesa Nicole fez 5 aninhos em 08 de setembro. Ela é muito
graciosa! Eu não sei se ela será jogadora, a decisão será dela;
estaremos sempre dando todo o suporte que precisar na escolha
que ela fizer.

Cilene e Marco Bonitta
Para você, o que é ser Melhor do Vôlei?
Para chegar lá, você precisa ter muita humildade, e trabalhar
muito!
Não é fácil. Você tem que estar sempre se aprimorando mais e
mais, senão fica pra trás! Se alguém é um sucesso, pode ter
certeza que ralou muito para chegar lá. É muito gratificante as
pessoas te reconhecerem! É inesquecível escutar um público de
mais de 2.000 pessoas gritando o seu nome, vibrando com você! Eu
nunca me esquecerei desses maravilhosos momentos que eu tive
como atleta! Nunca!
Cilene, deixe uma mensagem a todos os fãs do voleibol.
Um atleta não se realiza sem vitórias. E muitas vezes, uma
conquista se deve ao décimo terceiro jogador, que são vocês! Que
sofrem a cada ponto, que sem querer se tornam técnico (dando sua
opinião), que empurram seu time, seu ídolo para levantar a
cabeça e ir à luta. Que vibram a cada ponto, que comem todas as
unhas, que fecham os olhos, se retiram da sala por não agüentar
de emoção, e muito mais!
E tudo isso por nós? Que honra! Você quer coisa melhor no mundo
do que isso? Vocês são um fenômeno, obrigada por tudo que vocês
fizeram, fazem e farão por nós atletas!
Quero agradecer com todo o meu mais puro amor meu pai, que
faleceu faz 3 anos e que foi o meu maior fã! Nunca perdeu um
jogo na minha carreira inteira, não importava onde e que horas,
fosse 2 da manhã ou 11 da noite. Amo muito ele e sei que ele
está em paz! Estendo esse meu carinho a todos esses pais
maravilhosos que ajudaram a todas essas atletas espetaculares a
chegarem ao topo!
Cilene Drewnick.
Fotos: Arquivo