
Um dos mais experientes treinadores que atuam na Superliga, o treinador Sérgio Negrão foi o primeiro técnico a escrever seu nome entre os campeões da competição. A Superliga começou em 1994 e, em suas primeiras três primeiras edições (1994/1995, 1995/1996 e 1996/1997), o Leite Moça (Sorocaba-SP) levou a taça para casa, sob o comando do treinador.
A história de Sérgio Negrão se confunde com a história da própria Superliga e o treinador é considerado um dos mais competentes e respeitados do voleibol brasileiro. Hoje treinador do Brasília Vôlei, equipe que conta com estrelas como Paula Pequeno, Érika e Elisangela, Sérgio Negrão concedeu uma entrevista exclusiva ao Melhor do Vôlei, abordando, entre outros assuntos, o desempenho de sua equipe, da Superliga em si, os novos talentos do voleibol brasileiro e comentando sobre os críticos que apelidaram sua equipe de “penetra da Superliga”. Boa leitura!
Como você avalia o desempenho da equipe em sua primeira participação na Superliga?
Eu avalio a primeira participação do Brasília Vôlei na Superliga como discreta. Atingimos nosso objetivo técnico que era nos classificar entre os oito primeiros e, com isso, garantir a pré-classificação para a próxima Superliga, mas tivemos altos e baixos durante todo o campeonato. Oscilamos bastante e perdemos jogos que não podíamos perder, mas no final, acabou dentro das nossas expectativas.
Quando o time de Brasília foi montado, a equipe entrou atrasada no mercado e sofreu dificuldades em contratações em determinadas posições e isso ficou evidente durante a Superliga. Esse ano, o Brasília Vôlei contratou peças importantes de reposição, como a ponteira Michele, as levantadoras Pri Heldes e Ananda e as centrais Angélica, Roberta e Edna. Quais são os objetivos com esse elenco mais forte?
Conseguimos montar uma equipe competitiva a temporada passada e somos muito gratos as jogadoras que acreditaram no projeto Brasília Vôlei. Neste ano, conseguimos reforçar a equipe em todas as posições. Nossa equipe ficou mais forte, mas as outras equipes também ficaram. Acabaram duas equipes (Barueri e Amil) e todas as outras equipes absorveram as atletas dessas duas equipes isso fez surgir equipes mais fortes e equilibradas. Será uma Superliga bem disputada e interessante.
O Brasília Vôlei possui três jogadoras experientes que são os pilares da equipe: Paula Pequeno, Érika e Elisangela. Contudo, a chegada de jogadoras mais novas e de qualidade, como a ponteira Michelle Pavão, e a presença de quatro centrais de nível equivalente, acirra a briga por posição dentro da equipe. Como treinador, qual é seu objetivo e sua opinião sobre a situação?
Sou favorável de uma disputa leal e justa por posições dentro da mesma equipe. Isso faz com que as atletas não se acomodem e estejam sempre querendo melhorar. Acho normal uma rotatividade entre as jogadoras. É normal que uma atleta esteja bem num jogo e não tão bem em outro. Um jogo pode ser da Elisangela o outro pode ser o da Jéssica. É sempre bom ter atletas de reposição a altura das titulares.
Como você avalia os times que disputarão a Superliga 2014/2015? Quem são os favoritos?
Como eu disse anteriormente, acredito que a próxima Superliga será ainda mais difícil que a passada. As equipes estão mais equilibradas e muito fortes. Acredito que a Unilever sempre é favorita, pelo excelente trabalho do Bernardinho, o Molico/Osasco também sempre muito forte e o SESI já mostrou sua força. O Praia Clube montou uma equipe para disputar o título e já não será mais surpresa se ganhar.

Sérgio Negrão foi gestor e técnico do Voltaço Vôlei
Na última edição da Superliga, praticamente todas as equipes sofreram com um dos principais fundamentos do vôlei: a recepção. Ao que você credita um desempenho tão abaixo da média por praticamente todas as equipes?
Primeiro o saque está muito forte e evoluiu mais que a recepção. Em segundo lugar acho que tem a ver com a própria evolução do jogo de voleibol nos últimos anos. Está valendo mais a força física que a técnica. Hoje em dia é normal ter jogadoras que atacam muito bem bolas altas e de seguranças. Por isso, não há uma preocupação tão forte se uma equipe passa todas na mão, pois tem atacantes de força que conseguem corrigir passes não tão bons.
Como você avalia o nível técnico da Superliga? As equipes estão ficando mais equilibradas, com uma final inédita entre Sesi e Unilever depois de muitos anos? O vôlei brasileiro está ficando carente de jogadoras em determinadas posições, tendo de recorrer à estrangeiras?
O nível técnico está muito bom, Equipes fortes e equilibradas. Será uma Superliga incrível. Eu acho que todos os técnicos que trabalham na Superliga são muito competentes e farão de tudo para mostrarem seus valores. Não acredito que há carência de jogadoras em determinadas posições. Acho que está acontecendo um processo de renovação das jogadoras e é normal que as mais novas sintam um pouco a pressão no começo, mas depois elas acabam se soltando e assumindo a posição de liderança necessária. Trazer jogadoras estrangeiras é normal e fazemos isso a muito tempo. Eu mesmo já trabalhei com muitas jogadoras estrangeiras desde o começo da minha carreira. Acho normal uma equipe estar carente em certa posição e recorrer a uma atleta estrangeira.
Novamente, o ranqueamento ganhou destaque no final da edição da última Superliga e houve até uma campanha entre os atletas para a extinção dele. Qual é a sua posição sobre o ranking?
Sou inteiramente a favor do ranqueamento. Acho que ele cumpre o papel dele de distribuição de forças e evitar a concentração de jogadoras de nível pelo poder econômico. Algumas e alguns atletas que são contra o ranquemento veem o que é melhor para eles somente. O mercado do voleibol precisa ter algum tipo de regulador.
Muitos torcedores vêm criticando o processo de renovação da seleção feminina, afirmando que algumas das atletas convocadas são muito baixas para jogarem em nível internacional ou não possuem nível para tanto. Como você enxerga o processo de renovação da seleção?
O Brasil nunca teve a equipe mais alta do mundo e mesmo assim é bicampeã olímpica entre outros títulos. O Zé Roberto convoca as melhores jogadoras e nem sempre são as atletas mais altas. Se tiver uma atleta alta jogando tão bem quanto a Michelle Pavão em todos os fundamentos, tenho certeza que o Zé Roberto vai convocar. O Brasil foi Campeão Olímpico duas vezes com a Paula Pequeno (com 1,84) e Fernanda Garay (com 1,82) nas pontas. Acho que a preocupação com a altura é relativa. Claro que seria muito bom se todas fossem altas e bem trabalhadas tecnicamente, mas no Brasil, não temos o biótipo tão alto assim.
Quem são os novos talentos que você pode apontar que podem surpreender no futuro e fazerem parte da seleção?
Acho que a Monique e Michelle Pavão, a Priscila Heldes, a Angélica vão se reunir com as que já estão na seleção como a Gabi e outras.

Ricarda e Leila são as diretoras da equipe
Sobre o Brasília Vôlei, a equipe parece ter um projeto sólido que prioriza trazer atletas de Brasília e que incentiva o esporte em sua plenitude. Contudo, a cada ano, equipes são extintas da Superliga por falta de continuidade do patrocinador e muitas atletas ficam desempregadas. Você acredita que o voleibol brasileiro está em crise? O que falta para atrair mais patrocinadores e os fazerem permanecerem aliados aos times em projetos sólidos como o de Brasília?
O Brasília Vôlei tem um projeto muito interessante. A Ricarda e a Leila fazem escolinha de voleibol há oito anos, mas de cunho social. No ano passado, foi a primeira experiência delas com uma equipe adulta e foi muito bom. Nesta segunda temporada, elas conseguiram renovar com os patrocinadores e mais ainda, o BRB colocou o patrocínio ao voleibol do Brasília Vôlei no seu plano estratégico e isso garante o patrocínio por cinco anos. O BRB já patrocina o basquete de Brasília a dez anos e continua patrocinando. Espero que no voleibol o patrocínio também persista por tanto tempo. A Terracap, que é nosso patrocinador máster, também renovou a solicitou que apoiássemos as categorias de base. Temos uma parceria importante com o SESI Taguatinga nas categorias de base, mas toda a coordenação técnica é do Brasília Vôlei.
Não acredito que o voleibol brasileiro esteja em crise. O nível de investimento é cíclico. Tem anos com mais patrocinadores e equipes e tem anos com menos patrocinadores. Acredito que o entra e sai de patrocinadores é ruim para o esporte como um todo, mas todo projeto de marketing tem começo, meio e fim. O que precisa mudar é o modelo de negócio voleibol. A CBV nunca se preocupou muito com os clubes. As negociações do passado privilegiaram as seleções brasileiras e a própria CBV. Os clubes foram negligenciados. Acredito que a criação da Associação dos Clube de Voleibol, a ACV, vem no sentido de corrigir esse problema. A Superliga é uma competição muito grande que consegue trazer muito retorno de mídia. A negociação do produto Superliga pode ser diferente e arrecadar muito mais do que arrecada. E, a exemplo do futebol, dividir entre os participantes o produto dessa arrecadação.
Pelo fato do Brasília Vôlei ter recebido convite da CBV para integrar a Superliga, sem ter disputado a Liga Nacional, alguns críticos chamam a equipe de “penetra da Superliga”. O que você acha disso?
Eu acredito que o fato do Brasília Vôlei ser chamado de “penetra” pelo Bruno Voloch (o Nelson Rubens do voleibol) é uma tremenda dor de cotovelo que ele tem pelo fato da equipe ser da Ricarda e Leila e ele ter uma grande mágoa pelo fato da Ricarda ter sido escolhida como líbero da seleção brasileira na Olimpíada de 2000 em Sydney em detrimento da mulher dele, a Sandra. Posição que foi ganha em quadra de forma justa e comprovada cientificamente pelas estatísticas.
A prova disso é que várias equipes foram convidadas pela CBV ou não disputaram nenhuma seletiva ou Liga Nacional quando entraram na Superliga, entre elas: SESI (masculino e feminino), Unilever, Osasco, Amil, Maringá, Barueri, Uniara (disputou a Liga Nacional, mas ficou em segundo lugar), Maranhão, São Caetano, São Bernardo, RJX, UFJF, Taubaté, Volta Redonda, Montes Claros – só pra citar as atuais, pois se buscarmos equipes que já acabaram a lista aumenta muito.
Então porque só o Brasília Vôlei é chamado de “penetra”?
Mande um abraço aos torcedores do Brasília Vôlei que acompanham a equipe aqui no Melhor do Vôlei
A aceitação pela sociedade brasiliense e fãs do time do Brasília Vôlei foi sensacional . Esperamos retribuir com uma equipe muito guerreira alem de trazer muitas vitórias para os brasilienses que amam o voleibol.
Um forte abraço a todos!


