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Saturday 9 November 2019
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Gabi Guimarães: “Não existe mais razão para a existência desse ranking”

Foto: Nadine Oliver

Por Lívia Delunardo

Ela foi uma das protagonistas da histórica temporada do Itambé/Minas e vem se firmando como liderança na seleção brasileira. Gabi Guimarães tem pela frente a disputa da Copa do Mundo, título ainda inédito para o país, mas sabe que o grande desafio está por vir. Em breve, a ponteira desembarca na Turquia para defender o poderoso Vakifbank Itambul, sendo esta a sua primeira experiência defendendo um clube estrangeiro.

Aos 25 anos, Gabizinha fala com exclusividade ao Melhor do Vôlei sobre as expectativas no clube turco e também relembra a importância que Bernadinho, José Roberto Guimarães e Stefano Lavarini tiveram em sua formação como atleta. Além da renovação da seleção brasileira, ela ainda reforça a insatisfação com o ranking que ainda está em vigor na Superliga Feminina, mesmo abolido do torneio masculino.

Por que decidiu ir agora para o exterior e o que te levou a escolher a liga turca?

Eu sempre tive a vontade de jogar fora do Brasil, mas acho que precisava cumprir algumas etapas antes aqui no Brasil. Acho que fui amadurecendo ao longo dos anos. Fechei um ciclo no Rio de Janeiro, onde amadureci, venci, perdi e aprendi muita coisa mesmo. Vivi experiências maravilhosas no Minas também, com um outro treinador, um grupo que se ajudou demais durante a temporada e acho que agora chegou a hora. Vai ser importante ter essa vivência internacional para o meu crescimento como atleta. E a liga turca dispensa comentários, não é? Se não é a mais forte, está entre as três. O Vakifbank é um clube que fala por si só, mas vai ser um ano de muita ralação e de adaptação rápida, mas quero conquistar o meu espaço e contribuir pra equipe. Serão muitos torneios, todos com o nível muito alto, então eu vou de coração aberto para aprender e somar com o time.

Foto: Divulgação

Para muitos torcedores e parte da mídia, você tem a responsabilidade de substituir a chinesa Ting Zhu. Como encara essa pressão?

Ela construiu a história dela na equipe e eu vou construir a minha. As pessoas comparam, mas somos atletas com características completamente diferentes. Ela é uma pontuadora excepcional, muito alta, forte, etc. Eu já tenho característica de armação, de volume de jogo… São coisas distintas. Então, não é uma pressão de fazer igual a ela. Claro que jogar em um time com a grandeza do Vakif já carrega uma certa pressão, mas longe de querer substituir a Zhu. Mudaram algumas peças no time, então a gente vai ter que construir uma nova história, com as nossas características e soluções.

Como foi o seu primeiro contato com o treinador Guidetti? Você possui contatos com as jogadoras do atual elenco do Vakifbank?

Conheci o Guidetti jogando contra. Sempre admirei o trabalho dele. E conheço a Meliha Ismailoglu e somos amigas. Fiquei feliz em saber que jogaria com ela.

A torcida turca sempre comparece em grande número e a liga é uma das mais fortes da atualidade. Você acredita que o novo elenco do Vakifbank vai seguir conquistando títulos?

Claro que essa é a nossa maior vontade. O time que tem uma tradição enorme, a torcida vem junto e isso é muito bom. Acho que nessa parte eu já estou bastante acostumada, tanto a torcida do Rio como a do Minas sempre foram muito presentes nos ginásios. Acho que só engrandece as partidas. Mas acho que temos que ir torneio a torneio, buscar a identidade do time e depois pensar em título. Ganhar será consequência da nossa preparação diária.

Foto: Nadine Oliver

Falando de seleção, o time está passando por uma renovação que tem passado por críticas. Qual a sua visão sobre o desempenho dessa mescla de idade entre as atletas?

Acho que a gente conquistou o nosso grande objetivo da temporada, que era a classificação olímpica. Apesar de nem tudo ter saído da forma como a gente queria, não faltou dedicação, empenho e vontade. A gente treinou demais, quis demais. Mas chegamos ao segundo lugar da Liga das Nações, quase saímos com a vitória, que talvez fosse um resultado que pouca gente esperava. A gente sempre trabalhou para isso, para vencer. Claro que por ser um time mais jovem, tem mais oscilação, acho que é normal. Estamos melhorando a cada semana e ainda não pudemos com a Natália e a Tandara 100% em quadra, então é preciso ter paciência. Mesmo sem o time completo, tivemos bons resultados durante o ano. As críticas sempre vão existir, mas procuro filtrar o que é construtivo para poder seguir evoluindo.

Na Liga das Nações, você viveu a experiência de ser capitã em alguns jogos. Qual é o peso de liderar a seleção feminina diante dessa renovação?

As pessoas comentaram muito sobre isso, mas acho que aconteceu de uma forma natural. Não é uma coisa que eu busquei na minha carreira, sempre tive ótimas referências dentro de quadra que lideravam a equipe. Acabou acontecendo pra mim, claro que fiquei muito feliz, mas segui tentando fazer o melhor para o time e ajudar da melhor forma possível as meninas mais novas. Mas agora a Nati está de volta e a faixa de capitã é dela.

Qual foi a importância do José Roberto Guimarães no seu processo de amadurecimento? Como Bernardinho e Lavarini te acrescentaram na carreira?

Sempre falo que são três treinadores completamente diferentes, mas que cada um do seu jeito, soube construir uma filosofia de treinamento e liderou suas equipes para conquistas importantes. São notáveis as diferenças de temperamento e da forma de lidar com as atletas, mas os três são grandes estudiosos do voleibol. Fico muito feliz por ter tido a oportunidade de trabalhar com cada um deles. Bernardo foi tudo na minha formação, crescimento e amadurecimento, nunca vou conseguir agradecer tudo que ele fez por mim. O Zé me deu grandes oportunidades na seleção e me fez amadurecer muito com jogadora. Pude jogar com uma geração que me ensinou muito. Aprendi muitos detalhes técnicos com ele. Já o Lavarini sempre me deixou muito à vontade pra jogar. Ele entende muito do jogo, mas me deixava mais solta. Então me conheci mais como jogadora.

Foto: Arquivo

Você já demonstrou abertamente seu descontentamento em relação ao ranking. Em abril desse ano, em uma entrevista para a Folha de São Paulo, você disse que há um certo machismo diante da situação e que medidas drásticas fossem tomadas. Quais seriam?

As atletas deveriam ser ouvidas de verdade. Não existe mais razão para a existência desse ranking. A Superliga Masculina está ai para provar isso. Só atende aos interesses de alguns clubes que votam de acordo com o orçamento que possuem. Na minha opinião, não deveria existir há muito tempo. Foram mais de dez anos de finais entre Rio e Osasco e o ranking serviu para equilibrar alguma coisa? Hoje, temos mais equipes com condições de vencer a Superliga, o que é muito bom para o campeonato. Cada jogadora deveria poder escolher onde quer atuar e não depender de ranking.

Porque o ranking continua nas equipes femininas?

Acho que essa pergunta deveria ser feita para a CBV e para os clubes. Eu e todas as atletas pontuadas já deixamos claras as nossas opiniões. Mas isso só vai mudar quando eles quiserem. Infelizmente.




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