Crédito: Marina Beppu/Assessoria Vôlei Bauru
A partida entre Uniara/AFAV e Concilig/Vôlei Bauru, na noite de quarta-feira, em Araraquara, durou cinco sets, mas não acabou ainda. Pelo menos, é o que parece. A vitória do time bauruense foi eclipsada por uma briga envolvendo dirigentes e atletas depois do último apito, o que gera, até, incerteza sobre haver ou não o segundo jogo playoff das quartas de final do Campeonato Paulista feminino. Em meio a tudo, acusação de injúria racial de um lado e de agressão física do outro, justo preconceito e intolerância, duas das misérias morais que a sociedade deste começo de milênio diz abominar mas não é capaz de erradicar de seus costumes.
E o Voleibol Brasileiro, chamado de “orgulho” quando vence, soma esta história lamentável à da homofobia praticada contra Michael, do racismo contra Fabiana, contra Ramirez, contra Herrera, contra Wallace, à da briga entre Minas e Sada Cruzeiro, entre Sesi e Medley, entre Mário Jr. e Serginho. São episódios que deveriam envergonhar – e envergonham –, mas passam esquecidos, muitas vezes, porque outros tantos os sucedem, e não se encontra um marco punitivo exemplar para demarcar as sanções que vá além de multas.
Araraquarenses e bauruenses se manifestaram apenas por meio das assessorias de imprensa, assim como Fernanda Ísis (leia as notas abaixo).
A confusão, de acordo com o Concilig/Vôlei Bauru, começou ainda durante o jogo, quando torcedores do time da casa teriam ofendido Fernanda Ísis com insultos racistas. A Uniara/AFAV nega que tenha havido atos racistas e diz que a briga se deu inteiramente fora da área de jogo.
Sem policiamento no ginásio, os seguranças não foram capazes de impedir a briga entre dirigentes do time de Bauru e comissão técnica e jogadoras de Araraquara. A nota bauruense diz que seus dirigentes é que foram “encurralados” e “agredidos” por pessoas ligadas à Uniara – “devidamente uniformizadas”, diz o texto – e que a delegação não cometeu agressão contra ninguém do time adversário.
No entanto, de acordo com a assessoria de imprensa do clube mandante, a central Laisa teria sofrido escoriações, enquanto a fisioterapeuta Ariane desmaiou depois de um soco desferido por alguém do Concilig/Vôlei Bauru, sem saber se era dirigente do clube ou do patrocinador, e foi levada ao hospital para realizar tomografia. Mesmo com os ferimento, ainda segundo a assessoria, a meio de rede tem condição de atuar pela Uniara no sábado, e a profissional de fisioterapia, depois do exame, está em casa.
No começo desta noite, Fernanda Ísis se pronunciou através de nota. Ela diz que não presenciou a briga, só soube do fato quando estava dentro do vestiário. Ela também não confirma se foi vítima de insultos racistas ou não, limitando-se a comentar que “O racismo é uma atitude que deve ser extinta do mundo.”
A Uniara/AFAV quer que a partida de sábado, para segurança de suas atletas e da comissão técnica, não seja disputada em Bauru, mas em ginásio neutro, e que que, do contrário, não entrará em quadra.
A assessoria da Federação Paulista de Vôlei (FPV) diz que não recebeu nenhum comunicado, pedido ou documentação oficial de nenhuma das equipes – até o fim da tarde desta quinta-feira – e confirmou que a súmula do árbitro não fala em atos racistas que teriam ocorrido durante o jogo, nem na briga, pois aconteceu depois da partida e fora da quadra.
João Batista Jr.
Leia as três notas na íntegra:
Nota da Uniara/AFAV:
Sobre os fatos e atos de agressão física e verbal contra as atletas e comissão técnica da Equipe de Voleibol Feminino de Araraquara ocorridos na noite de ontem, no jogo contra a equipe de Bauru pela Divisão Especial do Campeonato Estadual, a AFAV – Associação Feminina Araraquarense de Voleibol informa que já notificou a Federação Paulista de Voleibol – FPV sobre os tristes acontecimentos.
A AFAV lamenta o ocorrido e comunica que em virtude das várias ameaças realizadas por membros da equipe adversária à Equipe de Araraquara, esta aguardando o posicionamento dos membros da FPV que inclusive presenciaram todo o ocorrido, quanto as possíveis sanções, providencias e inclusive, medidas de segurança a serem adotadas para a realização da segunda partida entre as equipes, prevista para acontecer em Bauru, no sentido de preservar a integridade de todos os envolvidos.
A AFAV informa ainda que, tal violência mesmo “fora” de quadra envergonha a modalidade em todos os sentidos, e proporciona total surpresa já que a equipe de Araraquara sempre sediou grandes confrontos, com adversário ilustres onde o respeito e a competitividade entre as equipes sempre prevaleceram.
No sentido de tranquilizar nossos torcedores e apoiadores, por fim, informamos que providencias foram e estão sendo tomadas para garantir a integridade física e moral de toda a comissão e atletas araraquarenses para que fatos como este não se repitam e não estraguem a real finalidade social do esporte em nossa cidade e região.
Primeira nota do Concilig/Vôlei Bauru
A diretoria do Concilig Vôlei Bauru esclarece que não recebeu nenhuma notificação oficial da Federação Paulista de Volleyball sobre o ocorrido na noite de ontem (7) no ginásio Gigantão, em Araraquara. Porém, vem por meio deste comunicado esclarecer alguns fatos:
-A confusão teve início ainda durante a partida com atos racistas de torcedores da equipe de Araraquara contra a atleta Fernanda Isis, de Bauru passando por inúmeros outros fatos desabonadores;
-Não houve agressão por parte de dirigentes, atletas ou membros da comissão técnica do Concilig Vôlei Bauru contra qualquer pessoa da equipe adversária;
-Houve sim uma grande desorganização por parte da equipe local, responsável pela segurança e integridade física de todos os presentes no ginásio;
-Não havia seguranças suficientes e devidamente preparados para situações como a ocorrida ontem;
-Havia uma churrasqueira com espetos, barras de ferro e cadeiras velhas próximos a área de vestiário das equipes, colocando a segurança das atletas em risco;
-Dirigentes e membros da comissão técnica do Concilig Vôlei Bauru foram encurralados na área de vestiário do ginásio e agredidos por pessoas ligadas à equipe do Uniara (devidamente uniformizadas);
-A polícia militar foi acionada por meio do comando de Bauru, pois não havia policiamento no local;
-A equipe bauruense precisou sair escoltada do ginásio, por não haver segurança suficiente para garantir a integridade dos membros da equipe visitante.
Por fim, a diretoria do Concilig Vôlei Bauru lamenta o ocorrido e vai aguardar o posicionamento da Federação em relação à equipe de Araraquara para anunciar quais atitudes eventualmente irá tomar.
Segunda nota do Concilig/Vôlei Bauru, com a declaração de Fernanda Ísis
O Concilig Vôlei Bauru esclarece que, diante dos fatos ocorridos na noite desta quarta-feira (7) no ginásio Gigantão, em Araraquara, a equipe do Uniara/AFAV/Araraquara será recebida com total segurança para seus dirigentes, comissão técnica, jogadoras e torcedores, como de praxe nos jogos em Bauru, na partida do próximo sábado, no ginásio Panela de Pressão.
Em relação à questão da injuria racial proferida por torcedores presentes no ginásio, a atleta Fernanda Isis se pronunciou sobre o ocorrido. “Fiquei sabendo do ocorrido quando já estava dentro do vestiário, através de pessoas que presenciaram essa cena lamentável. É muito triste que fatos como esse ainda ocorram no esporte ou em qualquer esfera da nossa sociedade. O racismo é uma atitude que deve ser extinta do mundo. Agora, o importante é manter o foco na partida de volta e pensar apenas na nossa classificação. Tenho certeza que vamos receber a equipe de Araraquara com todo a segurança e respeito que uma instituição como essa merece, como sempre Bauru fez com todos seus adversários e também com nós atletas”, enfatiza Isis.
Por fim, o Concilig Vôlei Bauru convida a torcida, tanto de Bauru como de Araraquara, a comparecer ao ginásio Panela de Pressão no próximo sábado, às 18h30, para prestigiar a segunda partida das quartas de final do Campeonato Paulista.


