Foto: Marcelo Ferrazoli/Vôlei Bauru
Por Júnior Barbosa
Desde que recebeu autorização para atuar em competições oficiais femininas, Tifanny Abreu, de 33 anos, se tornou figura constante em reportagens no Brasil e no exterior, principalmente quando retornou ao país e passou a treinar no Vôlei Bauru. O clube, que disputa a elite do voleibol no país, abriu as portas para que ela recuperasse a forma física depois de meses parada devido a uma cirurgia na mão esquerda. O que era para ser algo passageiro evoluiu com uma proposta de contrato para que ela atuasse no decorrer da temporada 2017/2018.
Apesar de ter cumprido todas as exigências legais e clínicas para atuar ao lado de outras mulheres, a atacante é alvo fácil de críticas, julgamentos e até ataques pessoais. Mais do que isso: ela tornou-se uma das protagonistas da atual polarização que é alimentada por boa parte da grande mídia e de grupos políticos. E o motivo? Ela é transexual.
Quando ainda era homem, Tifanny disputou competições oficiais por equipes masculinas. A partir de 2013, iniciou o processo de transição e, com o tratamento hormonal, viu sua força diminuir bastante, o que a obrigou a buscar jogadas com mais habilidade e técnica. Por não conseguir mais competir entre os homens, parou de atuar. Foi então que o seu empresário a orientou concluir toda a mudança de sexo e, com a documentação já como mulher, iniciou os trâmites para atuar no voleibol feminino.
No início de 2017, a Federação Internacional de Vôlei (FIVB) tomou uma medida que colocou o nome da atleta na história do esporte brasileiro. Ela tornou-se a primeira atleta transexual a receber autorização para atuar entre mulheres na categoria. Assim, ela entrou em quadra pelo Golem Software Palmi, clube da segunda divisão do Campeonato Italiano.
O treinador da equipe na época, Pasqualino Giangrossi, afirmou à imprensa que tinha concordado com a contratação da Tifanny pelas suas habilidades e que ela “comprovadamente havia perdido algo em torno de 60% da força e que estava saltando 3,15 metros, quando antes saltava até 3,60”, declarou.
A atacante, porém, não foi a pioneira. Em 2016, a italiana Alessia Ameri já havia disputado uma partida no torneio. Ameri, que joga como líbero ou ponteira, está na Série B2 e veste a camisa do Pallavolo Cerignola.
O que estabelece o COI?
Em 2016, o Comitê Olímpico Internacional (COI) divulgou um relatório que estabeleceu as diretrizes para que um atleta transexual possa atuar em competições esportivas oficiais, com dispositivos que garantem uma disputa leal e justa.
Em um comunicado, a instituição afirmou que “é preciso que os atletas trans não sejam excluídos da oportunidade de participar de competições esportivas”. Em casos de mudança de sexo biológico de masculino para feminino, é necessário que a atleta se declare com a identidade de gênero feminina e que apresente exames compatíveis, ou seja, ter um nível de testosterona abaixo de 10nmoL/L nos 12 meses anteriores ao da primeira competição desejada. Outra mudança é que deixou de ser obrigatória a cirurgia de mudança de sexo.
A estreia na Superliga Feminina
Tifanny recebeu autorização da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) e foi inscrita na Superliga Feminina 2017/2018. A estreia aconteceu no dia 10 de dezembro do ano passado, quando o Bauru perdeu para o São Cristóvão Saúde/São Caetano no tie-break. A jogadora marcou 15 pontos e teve um percentual de 40% de aproveitamento no ataque. Sua companheira de equipe, a experiente Paula Pequeno, marcou 19 pontos e foi mais eficiente (45%).
A atacante realiza exames todos os meses para a contagem hormonal. O objetivo é comprovar que o nível de testosterona dela está dentro dos limites estabelecidos para que uma atleta atue no voleibol feminino.
Confira a entrevista que Tifanny deu ao Melhor do Vôlei sobre a sua estreia no Vôlei Bauru: “A nossa luta é diária, mas vejo que o Brasil está mudando aos poucos”
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